quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Re?fluxo!!!

Pessoal, agora além do facebook estarei escrevendo no blog re?fluxo:

refluxosblog.wordpress.com

Vem, e não siga o fluxo!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Mudança de plataforma

Prezados, mudei minha plataforma permanentemente para o facebook. Logo estarei com novidades. Acompanhem:

https://www.facebook.com/raphael.juliano

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A velhice liberta




Do auge dos seus noventa e seis anos ela exclama: "Santa vagabunda! Coloquei cinquenta reais no cofrinho da igreja dela e minhas vistas não melhoraram." Referia-se à Santa Luzia.

"Parabéns vovó! Muitos anos de vida. Trouxe esse presentinho para a senhora." Ela afasta a neta porque não gosta de muito abraço e abre o presente. "Minha filha, eu sei que eu tenho noventa anos, não vou vestir nenhuma minissaia, mas isso daqui... isso daqui é um mosquiteiro. Não vou vestir isso não. Que marmotinha!"

"E então pai? Saudades da mãe? Já faz trinta anos que ela morreu." "Que isso filha. Tenho saudades de sua mãe não, afinal de contas eu não casei eu caguei."

É assim que acontece: a velhice não tem compromisso com meias verdades.

O velho se veste como quer, acorda na hora que o corpo pede, vai apenas nos aniversários de quem gosta, viaja quando dá na telha. O velho não recebe qualquer um em sua casa, não faz convites por educação, ele não finge afetos. É assim: sem pudor.

A velhice nos liberta para sermos quem quisermos ser. Não, nem sempre é tarde demais! Conheço velhos de trinta e quatro anos. Conheço velhos de trinta e nove anos. São poucos, é verdade, mas eu garanto: são pessoas de carne e osso.  São pessoas que não têm compromisso com meias verdades. Foram libertas por uma velhice oportuna que habita em suas almas. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Rasurando a adolescência


É típico do homem escrever esquemas, fazer roteiros, bolar fórmulas. Queremos estar no controle e essa necessidade é legítima. Só que às vezes descobrimos muito tarde que algumas coisas não são controláveis, no máximo influenciáveis. E a possibilidade de influenciarmos as circunstâncias de maneira negativa é muito alta.   O fato de vivermos em uma sociedade que exige rapidez nas decisões nos força a decidirmos quem queremos ser antes da vida adulta. Conheço pessoas que se deram mal. Conheço pessoas que estão felizes. E não falo aqui só do ponto de vista financeiro-profissional. Falo também dos afetos, das relações que são estabelecidas ao longo do caminho. Algumas se dão mal nas duas coisas. Outras conseguem sucesso, mas estão sozinhas, abandonadas. E existe a experiência de estar bem acompanhado e viver perrengues financeiros que fazem o diabo encarnar. Tudo isso foge à nossas fórmulas. Normalmente planejamos uma profissão que nos realize, um amor hollywoodiano, bons amigos e o lugar certo.
           
Sinto dizer, mas não existe uma profissão que nos realize. Nós somos feitos de realizações profissionais. Então vale a pena chutar o balde, mudar de setor na empresa, pedir demissão, iniciar um novo curso.
           
Sinto novamente em dizer, não existe amor hollywoodiano algum. Existe o amor não adjetivado. Aquele que temos que reinventar todos os dias. Amores adjetivados estão fadados ao fim.
           
Bons amigos não existem. Eles sempre estarão aquém de nossas perspectivas e se você não descobrir isso rápido, vai ficar sozinho. Amigos precisam ser leais e corajosos. Isso basta.
           
O lugar certo? Nós somos do universo. O fóssil mais antigo do gênero Homo tem 2,8 milhões de anos! Pelo amor de Deus! Temos milhas aéreas. Não existe lugar certo.
           
É difícil chegar na vida adulta e perceber que tudo aquilo que nos fizeram planejar na adolescência precisa ser rasurado e reescrito. Mas é isso. Pegue seu corretivo e escreva de novo, só que dessa vez com um lápis.
           
E não se entristeça. Afinal de contas quem não sente saudades do ideal? Quem não sente saudades dos projetos feitos na adolescência?



terça-feira, 30 de junho de 2015

Wathsapp, um lindinho que apareceu em minha vida



Há um ano e meio eu me comunicava via SMS. Hoje esse tipo de comunicação se tornou obsoleta. E-mail? Só o do trabalho, o pessoal eu uso para me comunicar com a editora, com livrarias e para receber ofertas de produtos em promoção.

Eu me lembro de quando os vanguardistas de meu grupo apareceram de celulares com android. Foi a deixa para o poderoso wathsapp entrar em nossas vidas. Eu relutei. Meus amigos designers diziam: "O layout do wathsapp é perfeito!" Meus amigos pedagogos diziam: "Isso é chato. Não nos deixa conversar." Dezoito meses depois e todos tínhamos aderido ao bendito aplicativo. Marcamos nossos churrascos, combinamos as viagens, confabulamos os encontros de fim de semana, programamos uma visita ao amigo que adoeceu, mobilizamos um grupo para ajudar alguém que precisa... fazemos tudo com os dedinhos. Claro, existem os que gostam de gravar áudios, mas esses são minoria.

O wathsapp veio como um messias. Dividiu em dois momentos a história da telecomunicação moderna. O primeiro, onde pagávamos caro para nos falarmos, desse onde materializamos uma imagem pela cam e nos fazemos presentes, e isso por um valor muito pequeno. Sei que muita coisa está acontecendo nas oficinas dos Jobs espalhados pelo mundo, mas desde o surgimento da internet não criamos algo tão poderoso como o wathsapp. Fácil e instantâneo! Algumas empresas já estão pagando smartphones para seus funcionários de modo que tenham acesso a eles vinte e quatro horas. Policiais já estão usando o aplicativo como uma segunda central de informações justamente por isso: fácil e instantâneo. Os médicos já realizam consultas e retornos pelo "zapzap". Basta anexar fotos dos sintomas visíveis, um breve relato dos sintomas clínicos e os resultados dos exames. Bingo! "Com essas placas na garganta vai precisar de antibióticos. Vou deixar a receita com a secretária." Namorar ficou muito prático, assim como acabar uma paquera. Basta monitoramos os tiques. Dois tiques azuis e o parceiro tem cinco segundos para responder. Dois tiques azuis e a paquera não respondeu: tchau, já era.

É um novo tempo ao qual achei que não ia me adaptar. Fui engolido por ele! Penso que ainda vamos caminhar muito. Confesso que não sei em qual direção, mas lembro-me do filme de Jonathan Mostow, Substitutos. É o ano de 2054 e a população usa andróides para realizar suas tarefas diárias. Tudo de maneira muito performática. Ninguém sai de casa, mas todos acham que possuem uma vida. Talvez tenhamos iniciado esse momento onde achar a performance ideal é mais importante que abrir a porta de casa e mostrar o rosto. Tudo bem. Fazer o quê? Sem hierarquias. Cada período constitui a história da nossa espécie, mas de uma coisa estou convencido: para quem vive a transição, isso tudo é uma merda.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Caros leitores, as novas publicações estarão na minha Fanpage (clique aqui). Aguardo vocês!!

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Futebol? Isto é dinheirismo!


Sete dirigentes da Fifa detidos por corrupção envolvendo empresas de marketing e transmissão esportiva. O enriquecimento ilícito desses senhores do futebol envolve também a escolha dos países-sede das copas de 2018 e 2022 - Catar e Rússia, em um processo de escolha no mínimo duvidoso.

Entre os detidos está José Maria Marin, ex-presidente da CBF e atual vice-presidente da entidade. 

Definitivamente a corrupção entrou em todas as instâncias da vida humana. Ela parece ser a nossa segunda pele. Desvirtuou até nosso circo, digo, nosso futebol. 

Para não perder a oportunidade sugiro aos manifestantes anti-PT, que ao saírem às ruas não vistam a camisa da CBF. Seria um tanto controverso. Sugiro também aos meus vizinhos que parem de gritar em dias de jogos do Cruzeiro e do Atlético, porque isso é estupidez demais.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A revolução dos bichos e o aniversário do PT



Escrito há setenta anos, o livro "A revolução dos bichos", de George Orwell, me vem à mente quando penso nos trinta e cinco anos do PT.

Na fábula o grande britânico, que era socialista e inimigo de qualquer forma de manipulação política, satiriza a ditadura stanilista humanizando animais. Os bichos tomam a granja e expulsam os homens. Então se instaura uma nova forma de vida para os ora explorados bichos. Todos têm direitos às mesmas frações de água, de comida e de descanso.  Todavia, os porcos, por serem um pouco mais inteligentes, começam a "governar" o reino dos animais e, sob a desculpa de tentarem manter um sistema que 'seria bom para os bichos' se envolvem em homicídios, em notícias falsas e em uma série de mecanismos conhecidos nossos. No fim das contas, a bela história termina com os porcos sentando à mesa, onde outrora só os homens se sentavam, comendo e se embriagando. No fim das contas, os porcos comem com talheres. Na fábula "todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros."

Talvez na tentativa de defender um estilo de vida, uma ideologia, uma religião, um sistema partidário, um partido, uma pessoa... a primeira coisa que fazemos é descaracterizar o que antes protegíamos e torná-lo algo menos igual do que ele jamais teria sido. O sistema político brasileiro é uma bestialidade e os bichos, que um dia prometeram mudá-lo, sentaram-se à mesa e comem com talheres. 

Parabéns PT, "quem te viu e quem te vê"!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O expresso da meia-noite de Archer



Estados Unidos, Japão, Cuba, Camarões, Egito, Emirados Árabes estão na lista dos mais de sessenta países que adotam a pena de morte. No último dia 18 o brasileiro Marco Archer foi executado na Indonésia por tráfico de drogas. Todos já sabemos da história. Ele estava preso desde 2004. E para mim são essas as duas questões que camuflam o oportunismo de todos nós que achamos que foi bem feito ou que somos contra: mais de sessenta países no globo possuem a pena de morte em seus arcabouços jurídicos e o fato do nosso compatriota estar preso há dez anos.

Sim, é oportunismo político, virtual, legal e filosófico voltar o olhar para a Indonésia enquanto o Irã condena à morte estupradores. É oportunismo questionar o arcabouço jurídico dos indonésios enquanto vários países da África e da Ásia executam homossexuais. Todo tipo de opinião isolada nesse contexto parece ser tendenciosa e promíscua. Afetada pela velocidade com a qual as informações chegam para nós e da forma como chegam. Ao invés de tratar a pena de morte como fato isolado na medida em que ela acontece e é noticiada, deveríamos considerar com mais seriedade os tratados internacionais que, não violando as soberanias nacionais, colocam-se como mecanismos de discussão sobre questões que não transcendem culturas, mas ao contrário percebem a riqueza da comunidade global e buscam harmonizá-la. É leviano, nesse momento, se colocar simplesmente a favor ou contra a morte de Archer.

Dez anos! O que nossa embaixada fez por Archer nesses dez anos antes de ser chamada de volta ao Brasil? Seis pedidos de clemência ao que tudo indica. Fez o que tinha que ser feito do nosso ponto de vista jurídico, mas desrespeitou a Indonésia ao se retirar. Desrespeita os que estão nos corredores da morte nos EUA, no Egito (mesmo que não sejam brasileiros) e em todos os países onde temos representações diplomáticas ao não chamá-las de volta ao Brasil. Ou a questão é apenas (não tenho a intenção de ser debochado quando uso a palavra "apenas") Archer? Para mim, soa leviano celebrar tratados internacionais de defesa dos direitos humanos, pedir clemência seis vezes em dez anos, assinar acordos comerciais com diversos países que possuem a pena de morte e retirar o embaixador tupiniquim da Indonésia depois da execução do surfista-traficante.

Quando eu assisti O expresso da meia-noite, saga de um jovem estadunidense que é preso, e condenado a trinta anos de cárcere, quando tenta sair com haxixe da Turquia, senti profunda empatia pelo protagonista. No caso de Marco Archer não. A imprensa, os internautas e o governo brasileiro me fizeram sentir nojo (do episódio). 

Talvez se houvesse seriedade na discussão sobre a pena de morte e o Direito Internacional o expresso da meia noite de Archer teria um outro final.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O ciclo 2014 chega ao seu fim



Já escrevi que sempre estamos tentando submeter o tempo. É a nossa necessidade de imortalização. Isso pode ser bom e pode ser ruim. Quando tentamos submeter o tempo para termos referência do passado e do futuro, considero que seja bom. Mas quando tentamos submetê-lo com essa ideação de nos eternizar, penso que podemos sofrer muito. A eternidade é apenas uma conjectura na qual queremos acreditar.

Nesse afã passam-se doze meses. E o que fica? O que vai? Gosto da perspectiva de tentarmos submeter o tempo fechando ciclos. É preciso termos a consciência de que ciclos devem ser fechados e outros iniciados.

Nos doze meses que se passaram, fiz escolhas e, atreladas a elas, dei fim a inúmeras possibilidades, mas também me abri para a vida abraçando o porvir. Deixei pessoas para trás de maneira sóbria, reencontrei outras e recomeçamos. Conheci novas pessoas que parecem ser incríveis. Decidi minhas posições no trabalho, publiquei meu primeiro livro, escolhi novamente a cidade na qual quero viver por mais um tempo, deixei a barba crescer, sabendo que teria que raspá-la novamente. Beijei, arrisquei-me. Tentei ajudar quem queria ajuda e não ajudei aqueles que preferem seguir sozinhos. Reafirmei meu amor à família e aos amigos e minha cautela para com as instituições. Comecei a ler Kerouac, dei um tempo em Dostoiewski, chorei por Rubem Alves e me apaixonei de vez pelo velho Bukowski. Decidi não trocar de carro tão cedo e comprar mais chapéus e camisas de poá. Escolhi continuar amando as reticências e evitando as vírgulas. Na minha caminhada, tive que ressignificar muita coisa para sobreviver. 

É isto: vamos fechar ciclos. Alguns dizem que começamos tudo igual. Que os projetos são os mesmos. Coitados. Estão deixando esta beleza que é a vida passar! Faça um novo projeto! Inicie um novo ciclo! Aprenda uma nova língua. Apaixone-se novamente. Aprenda a cozinhar! Corra! Corra mais cinco quilômetros. Faça Pilates. Mova-se, porque o universo pode conspirar por você a qualquer momento!

Desejo um bom término e um bom começo!


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quem é que vai limpar nossa privada?

Folheando as páginas da internet no dia dois deste mês li uma matéria no jornal Estado de Minas na qual dizia que o Papa e outros líderes religiosos assinaram um acordo pela erradicação da escravidão até 2020. Quando li a manchete confesso que fiquei pensativo. Lembrei-me do processo, gradual, de abolição do trabalho escravo que se iniciou no Brasil em 1850. É, não acabou. Nem aqui nem lá fora. Ainda exploramos o outro. Ainda queremos ganhar dinheiro sobre o trabalho alheio, com o menor esforço possível.

Quando o Brasil regulou a atividade de empregada doméstica, li enxurradas de mensagens, impregnadas pelo senso comum, de que seria impossível manter uma "secretária" (que eufemismo estúpido), pagando salário mínimo e benefícios. Na verdade, elas sempre deveriam ter sido tratadas como qualquer trabalhador, mas nós, em nome do papel ao qual chamamos de dinheiro, deliberadamente escolhemos explorá-las. Sim, a escravidão está em nossos quintais, nos nossos sítios, nas nossas lanchonetes, no restaurante onde almoçamos, nos supermercados onde compramos. Basta parar um minuto e perceber ao redor. A todo momento tentamos explorar o outro. A todo momento tentamos lucrar. Ou você acha que trabalhar aos domingos e feriados, de 10 as 22 horas, com folga apenas na segunda-feira, para ganhar oitocentos reais por mês não é trabalho escravo? Não. Não é mentira. Convivo com pessoas que são exploradas assim. E constantemente elas se perguntam se é melhor ganhar isso sendo exploradas aqui (em sua terra natal) ou ganhar um pouco mais em libras e serem exploradas em Londres, trabalhando vinte horas por dia (e por noite).

Francisco está certo. Temos que continuar o processo de abolição do trabalho escravo. Contudo o prazo está apertado - eita Papa apressado. O ano praticamente acabou e, pelas contas dele, temos cinco anos de luta pela frente. Admiro o otimismo de Bergoglio. Mas talvez nunca erradiquemos o trabalho forçado e o tráfico de pessoas para tal. A nossa lógica é outra! Afinal, quem é que vai limpar nossa privada?


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Hoje eu decidi molhar os pés



Hoje é uma sexta de noite chuvosa em Belo Horizonte, final de novembro, dia vinte e oito, e a chuva parece enfim querer chegar. Para mim, ela anuncia possibilidade de renovação, possibilidade de que não aconteça racionamento de água. Mas anuncia também a pressa da memória das pessoas, a pressa da existência consumida.

Quando saí do trabalho saquei meu pequeno guarda-chuva da mochila, ciente de que iria me molhar. Vi tanta gente correndo pela rua! Claro, é um desejo legítimo: não se molhar. Então me lembrei de uma conversa que tive há dias com um amigo sobre como seria bom tomar um banho de chuva nesses tempos de seca. Lembrei-me das pessoas reclamando do calor e do preço do limão (a caixa subiu 43%). Continuei meus passos lentos em direção ao metrô. Eu era empurrado e olhado com estranheza por causa da minha lentidão. Os pés já estavam molhados, então não pulei a poça de água. Já no vagão consegui um lugar para sentar e, quando tirei meu Júlio Verne para continuar a leitura, percebi que não podia ler, porque tinha uma goteira bem em cima de mim, fechei-o e esperei por meu destino. Desembarquei entre mais correria, com água molhando meus pés.


Compreendo que molhar as meias é horrível. Todavia, às vezes, pode ser um evento profético. Pode significar que teremos terra boa e fartura, mas hoje, não sei o porquê, ninguém se lembrou do calor e da escassez. Como nossa memória tem pressa, muitos de nós se esqueceram do problema anterior, e a chuva se tornou o maior problema do dia. Hoje eu decidi continuar andando devagar e molhar os pés. Desejo um bom Black Friday para os que se esqueceram do calor e do preço do limão. 

P.s.: e a principal nascente do rio São Francisco voltou a jorrar.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Deixem-nos morrer!!

*Imagem da morte jogando xadrez com o cavaleiro, do filme 'O Sétimo Selo'.


A morte de Brittany Maynard foi linda como sua vida. Em sua cama, rodeada por aqueles que ela amava e com a música que ela escolheu. Antes que o câncer cerebral atingisse um estágio no qual a paciente não teria mais autonomia e sua sobrevida fosse garantida pelos médicos e parentes, a moça realizou um suicídio assistido.

Escrevi outro dia sobre o direito ao parto (normal ou cesariana), e a atitude dessa jovem me fez pensar sobre o nosso direito a uma morte digna. Temos dificuldade para falar sobre isso por causa da nossa raiz judaico-cristã. Mas além da mitologia da religião, que tenta eternizar nossa existência, a medicina e sua ética, afetada pela mesma matriz, tentam prolongar a todo custo a vida dos doentes terminais. Recentemente vi um garoto de pouco mais de vinte anos, que lutava contra um câncer, ficar em carne viva em cima de uma cama, recebendo cuidados paliativos, porque não nos permitimos discutir tais questões. Ele estava entubado, inconsciente e sequer podia receber os carinhos da mãe, porque ao menor toque, a pele se desmanchava. Não estamos falando aqui de pessoas que têm possibilidades de terapia. Estamos falando do fim das possibilidades e, nessa perspectiva, existe um pudor funcional em todos nós: temos dificuldade em falar da finitude.

O Conselho Federal de Medicina, em 2012, publicou uma resolução chamada de Diretiva Antecipada de Vontade. O objetivo é de que o paciente registre seus valores e princípios e, de maneira clara, especifique os procedimentos aos quais aceita ser submetido. O documento precisa ser registrado em cartório, e seu declarante tem que ter um procurador. Contudo ainda existe um longo caminho a ser trilhado em todo o mundo acerca do assunto. A própria Brittany teve que se mudar da Califórnia para o Estado de Oregon para se beneficiar da lei do suicídio assistido. Ela, que antes de morrer,  esteve no Vietnã, em Camboja, em Laos, na Cingapura e na Tailândia. Que trabalhou um verão na Costa Rica e que viajou para a Tanzânia, para escalar o Kilimanjaro. Ela que fez aulas de escalada no Equador e mergulhou em Galápagos, em Zanzibar, nas Ilhas Cayman e basicamente em toda ilha que visitou, não pode morrer na terra onde nasceu, porque não nos permitimos falar sobre a eutanásia.

Quando as pessoas quiserem falar sobre o assunto, farei coro com aqueles que pedirão: deixem-nos morrer!


sábado, 25 de outubro de 2014

Vocês vão governar para quem?



O que queríamos ver? Uma conversa sobre os pontos cruciais que precisam melhorar em nosso país.
O  que vimos? O de sempre. Marketeiros manipulando os candidatos de modo que eles fugissem, pelo ataque rasteiro, das principais questões que precisam vir ao debate público. Pouco ou nada se discutiu sobre sustentabilidade, reforma política, o fortalecimento do estado laico, políticas que defendam grupos vulneráveis, a gestão participativa e representativa do SUS e tantas outras pautas.

O jogo político se dá aí: no campo da marginalidade, onde os presidenciáveis tateiam entre o que dizer e o que não dizer. Sim, o jogo, é marginal, diferente da boa e distante política. Já sei em quem vou votar e não farei lobby aqui. Apenas escrevo porque no meio de tudo isso estamos nós, sociedade civil, e diferentemente do que a mídia golpista diz, não estamos em um regime bolivariano. Estamos longe disso. Estamos amordaçados! Nossas perguntas e dúvidas não foram discutidas. 

Faço das palavras de Raquel Landim, repórter especial do jornal Folha de S.Paulo, as minhas:
"Depois de protagonizarem uma campanha de poucas propostas e muitos ataques, que dividiu o país ao meio, vocês serão capazes de adotar uma agenda conciliadora e governar também para a metade do país que não os elegeu? Como?"

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Cadê meu quintal?


Nosso país é uma grande casa onde a maior parte das pessoas não tem a dimensão da rua. Sim, é uma menção a Roberto DaMatta em sua obra "A casa e a rua". Hoje pela manhã enquanto lia jornal vi uma matéria sobre um cidadão que trabalha como policial civil em Brasília. Ele está de uniforme e pula a catraca da portaria de um Hospital. Quando o segurança do lugar repreende a forma como o policial se portou ele é algemado e conduzido à Delegacia.

Certo é que não se trata da atitude de um policial. Eu sempre insisto: é a atitude de um homem (ô racinha, viu!). Nossa espécie dá sinais de falência a todo instante, contudo aqui embaixo do Equador há alguns comportamentos que ainda são mais arraigados. Temos muita dificuldade em separar aquilo que é público do que é privado, a casa da rua. Não conseguimos mais ter limites quando estamos em um ambiente que não é só nosso. O brasileiro tende a levar sua ambiência privada para o espaço comum, da mesma forma que utiliza do poderio que o estado investe no serviço público para satisfazer a interesses pessoais. Além do poder existe um outro mecanismo largamente utilizado por nós: o status. Não mais o policial ou o juiz, agora aquele que diz "sabe com quem está falando?" é um médico ou um jogador de futebol, mas a mistura entre público e privado continua porque na maior parte das vezes quando essa frase é usada por essas pessoas, que não são funcionários públicos, é para fugir da aplicação lei.
É assim que ainda funciona aqui. Podem dizer que mudamos alguns comportamentos. Até acho que pela vigilância digital realmente tenhamos mudado, mas o fato é que a frase "sabe com quem está falando?" nunca deveria ter sido dita.




terça-feira, 14 de outubro de 2014

O direito a não sentir dor




A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) fará consulta pública sobre Resoluções que tem o objetivo de controlar o tipo de parto das mulheres brasileiras. Sim! A ANS diz querer estimular o parto normal, mas as resoluções querem é regular.

No Brasil, na rede particular, mais de 80% dos partos são por cesariana. Mais de 40% dos partos no Sistema Único de Saúde (SUS) são por cesariana. A média geral é superior a 50%, mais de 35% do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

O Ministério da saúde afirma que o parto não é uma questão de consumo, mas sim de saúde pública. A incidência de síndrome respiratória aguda é maior nas crianças nascidas na cesariana, o número de óbitos neonatais também é maior, segundo o MS e a OMS. E lá vem aquela balela de que a vida é um bem inalienável. 

Não sou contra o parto humanizado. Não sou contra o parto normal. Penso que essa é uma decisão que deve ser partilhada entre paciente e médico. 

O Estado quer proteger o direito a vida a todo custo, mas e o direito a não sentir dor? Existem lugares onde o Estado não cabe.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A esperança enrugada é melhor que a velha privataria

Lembro-me quando Lula foi eleito: "a esperança venceu o medo". E de lá para cá muita coisa mudou. Como qualquer ideologia político partidária o lulismo e o petismo tomaram volume. E o que esperávamos? Uma política de bons moços? As oligarquias que mandavam e desmandavam no país desde a abertura democrática nunca foram compostas por bons moços. Para garantir a governabilidade o PT teve que entrar no jogo. É assim que funciona. Ainda é assim! Muitos erros, sem dúvida. Quem quiser se salvar tem que pular desse barco. 

Minha opinião pessoal é de que não está ótimo. Todavia pode voltar a ficar ruim. Não votei em Dilma. Ela não conseguiu fazer a reforma política que o Brasil precisa. Sim! Meu voto foi pela abolição do atual sistema. Não foi um voto de protesto. Eu e meu pequenino voto queríamos desestabilizar o que está posto. Evidente que não consegui. Minha Luciana volta para suas lutas diárias e agora tenho que me decidir entre a social-democracia e a enrugada esperança trabalhista. 

Não duvido da capacidade técnica de Aécio. Não duvido de sua equipe e gestão. Eu duvido é de suas intenções. Vamos voltar a um Brasil de poucos. Vamos voltar para as mãos daqueles que geriram esse país por mais de trinta anos e nunca se lembraram do povo, de quem está na base da pirâmide. Aécio Neves destruiu a educação de Minas Gerais, manipulou números para demonstrar indicadores positivos e sucateou a saúde. Sou mineiro. Sei do que estou falando.

Dilma gerou renda, falta avançar e gerar competências. É para isso que votarei nela. Vou permitir mais uma vez que a esperança vença o medo.

Não dá para ficar em cima do muro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A crueldade nossa de cada dia





Uma das primeiras leis que estudei durante meu período de formação como profissional de segurança foi a lei 9.455/97, aquela que define os crimes de tortura. Lembro-me que questionava, absorto em mim, sobre a necessidade de uma lei que protegesse as pessoas de tal crime. Questionava-me não em relação a lei em si, mas sobre o fato de que existiam pessoas capazes de submeter outro ser humano à sofrimento físico e mental sob alegações diversas: castigo, obtenção de confissão ou mesmo de maneira preventiva.

Durante mais de uma década percebi que existem pessoas assim além dos livros de História. Negros, judeus, ciganos, pobres sempre foram as vítimas preferidas desse delito, todavia a crueldade narrada pelos historiadores, desde o holocausto até o apontamento das ditas classes perigosas (conceito sociológico ultrapassado), se materializa no nosso dia a dia.

Em Araçatuba, interior de São Paulo, uma menina foi torturada pelo padrasto, Maurício Scaranello, e pela mãe, Sara de Andrade Ferreira. Eles ofereciam cebola para a criança alegando ser maçã e a impediam de dormir. Os dois torturadores já foram indiciados.

Agora pergunto-me qual o perfil desse casal? Até a descoberta do crime, no início deste mês, eram criminosos que passavam despercebidos pela comunidade. Não há no perfil deles nada que indique as atitudes das quais são acusados, a não ser uma característica fundamental: são humanos.

Quando escreve o mito do Cocheiro, Platão compara a alma a uma carruagem puxada por dois cavalos, um branco (de gênio difícil) e um negro (o do prazer). O corpo humano é a carruagem, e o cocheiro (razão) conduz através das rédeas (pensamentos) os cavalos (sentimentos).  Para o filósofo, cabe ao homem através de seus pensamentos conduzir seus sentimentos, pois somente assim ele poderá manter-se sóbrio. Parece-me que as rédeas andam soltas!

Hoje eu entendo bem a lei e sei que existe maldade por aí. Nunca presenciei a personificação do mau como as religiões narram. Contudo vejo todos os dias o que os da nossa espécie são capazes de fazer. Um amigo sempre me diz que existem mais pessoas boas do que ruins. Eu discordo. Existem mais pessoas más do que boas, e elas precisam infligir ao outro sua cota diária de crueldade, seja através de uma fofoca de canto de escritório, seja oferecendo cebola à uma criança.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Rio São Francisco tornou-se descartável






 A principal nascente do Rio São Francisco em São Roque de Minas, na Serra da Canastra, está praticamente seca. Um dos mais importantes rios do Brasil, com 2.700 quilômetros de extensão, dá mais um sinal de alerta à humanidade.

A história tem mostrado que uma de nossas características mais evidentes é não saber conviver com o planeta. O afã desenvolvimentista e consumista do ser humano tem impactado o ambiente que nos abriga. Outrora consumido em guerras, ainda presentes, todavia redimensionadas, a Terra hoje sucumbi sob a égide de uma lógica perversa: a descartabilidade.

Na direção contrária à permacultura, sustentabilidade social e economicamente justa, os assentamentos humanos internalizaram uma relação fast food com o espaço no qual vivem. Sim, parece que não há tempo. A pressa impera. Temos que explorar o planeta até a escassez dos recursos que não se renovam. E tudo isso em nome de uma fictícia qualidade de vida. Não andamos mais a pé. Não subimos escadas. Esquecemos nossas bicicletas nos porões. Gastamos mais água para produzir uma garrafa de plástico de 500 ml, do que a própria quantidade de água contida ali. Não há lixeiras a cada quarteirão e isso nos dá o falso direito de jogarmos o papel de bala no chão. Temos três carros na garagem da mesma casa e a cada amanhecer cada um pega o seu veículo para um destino, que tantas vezes é na mesma direção. Compramos um par de calçados a cada mês como se fôssemos centopeias. E tudo isso sem percebermos que estamos levando nosso habitat ao limite. A Terra é um sistema fechado e todas as transformações naturais que presenciamos não são normais porque ela não troca matérias com o universo.

Não se trata aqui de ser um 'eco chato', mas sim de observar que existe uma relação desigual. E nas relações desiguais há duas tendências básicas: ou o que é mais exigido expurga o outro quando não dá conta, ou o que mais exige sucumbe quando não é satisfeito. Nesse contexto, qualquer um dos caminhos é perigoso.

Descartamos as estações do ano, descartamos a camada de ozônio, descartamos a mobilidade e agora descartamos o Velho Chico. Achamos que podemos descartar a 'mãe natureza', mas estamos enganados. Há tempos ela nos percebe como à um corpo estranho, e lentamente vai corrigindo seu erro. Vai nos expurgando.

Se eu fosse a Terra não seria tão piedosa, corrigiria tudo antes que descartemos de vez a foz do São Francisco em seu belo encontro com o mar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Esse mundo não me alegra

           

 "Esse mundo não me alegra." Foram as palavras de um amigo ontem. Ele tem seus motivos, mas e nós temos os nossos? Então vou mencionar dois motivos pelos quais esse mundo não me alegra.

Na última quinta-feira Patrícia Moreira, de vinte e três anos, gritava em alto e bom som durante a derrota do Grêmio para o Santos: "macaco". Ela referia-se ao goleiro Aranha, do time perdedor.
Ontem um garoto de doze anos foi barrado pela diretora da escola Municipal onde estuda, no Rio de Janeiro, por ter aderido ao Candomblé. O menino usava guias, contas coloridas usadas no pescoço que distinguem a qual orixá pertence cada indivíduo adepto da religião.
            
Dois motivos fortes para não me alegrar com esse mundo. Aqui as pessoas parecem não ter o direito de ser aquilo que são ou aquilo que escolheram ser. Todavia o que mais me assusta é o fato dessa segregação, que parte de uma ideia padrão, muitas vezes se originar no espaço do lúdico, sobretudo do lúdico que vendemos, o futebol, bem como no ambiente público, do Estado.
           
 Sim, Patrícia, é humilhante chamar um negro de macaco tanto quanto seria chamar uma branca como você de vaca. Percebe?
            
Sim, senhora Diretora da Escola Municipal Francisco Campos, é uma aberração proibir um aluno de entrar no educandário por causa da sua religião, tanto quanto seria não pensar em uma política salarial justa para sua categoria. Percebe?
           
 Questões como o racismo ou a fragilidade da laicidade do Estado já deveriam ser pautas superadas. Procuro argumentos em favor das duas mulheres e não encontro. O anonimato do estádio de futebol? A historicidade de nossa cultura judaico-cristã? Não. Não é aceitável. E o pior de tudo é ter a plena consciência que existem muitas Patrícias. É saber que o crucifixo aparece ostensivo na entrada principal de muitos espaços públicos, apartando do direito quem precisa dele. Tempos difíceis!
            
Esperança? Se tenho esperança? Duas coisas me fazem querer ter esperança. São resoluções pessoais. A primeira é não torcer para time de futebol e a outra é não votar em candidatos religiosos. Então o que tenho para hoje, como diria o saudoso Rubem Alves, "é a possibilidade da esperança."