domingo, 14 de julho de 2013

Fomos treinados para isso!, por Raphael Juliano.






            Recentemente assisti ao documentário de Tom Shadyac, “I AM”. Confesso que fazia tempo que não via algo que retratava tanto meu pensamento. Depois de um trauma, o diretor famoso redimensiona sua vida e vai em busca de respostas para duas questões básicas:”O que está errado no mundo?” e “Que podemos fazer sobre isso?”
            Em um mundo que nos estimula a consumir e a sermos carreiristas a obra em comento é uma contestação.  
            Não há tempo para sermos felizes em plenitude. Desde que nascemos somos treinados para sermos os melhores e para consumirmos tudo, inclusive relações humanas. Em todas as instituições percebo as pessoas sendo estimuladas ao carreirismo. Na igreja os seminaristas querem ser bispos, nos quartéis os soldados querem ser coronéis, na iniciativa privada o estoquista quer ser gerente geral e na universidade o graduado quer ser doutor.
            O consumo é tão facilitado que podemos fazer sexo e dividir no cartão de crédito em dez vezes. Somos estimulados a consumir tudo. O advento da internet, e as redes sociais, nos bombardeiam com uma gama tão intensa de informações que se não consumirmos nos sentimos mal. Somos obrigados a consumir inclusive informação. Parece que a vida depende daquilo que compramos. Parece que a vida depende do cargo que galgamos na nossa empresa. Felicidade é isso: consumir e competir.
            Digo para você, meu caro. Discordo. Felicidade é bem mais do que ter uma relação com a propriedade privada. Felicidade é bem mais do que estar no topo. Felicidade é ter um caso de amor com a vida e com as pessoas. Felicidade é integrar o erro ao ser e se redescobrir enquanto ser humano. Claro que essa é uma história individual. Cada um tem que fazer sua estrada. A questão é: e quando completarmos sessenta anos? E setenta? Ainda haverá o sonho do melhor carro e do melhor cargo? Se não redescobrirmos em nós a beleza da vida, da simplicidade de ser, das prosas de varanda, de um livro ou filme, estamos fadados a um fim solitário e triste. Isso porque as coisas e a competição por elas não podem substituir a essência do homem. Essa falsa ideia é perigosa porque não há recursos para comprar tudo. Não espaço no topo para todos. E na medida em que internalizamos a lógica da competição e do consumismo corremos o risco de nos frustrar.
            Tenho redescoberto a beleza do ócio, da rotina, da lentidão. Tenho redescoberto a beleza de um bom café com amigos queridos. Tenho encontrado algumas pessoas com os mesmos propósitos. Poucas pessoas, mas pessoas que quero manter por perto, pois ao chegar aos sessenta ou setenta desejo aproveitar dessas belezas que redescobri.
            Fui treinado para ser carreirista. Fui treinado para comprar. Sou um péssimo aluno. Não aprendi bem, não entendi a lição.

                                                                                                RJ
     

domingo, 26 de maio de 2013

Submeter tudo que nos desumaniza, por Raphael Juliano.


Confesso que faz algum tempo que estou pensando em algumas coisas que tem me incomodado: tecnologia, escassez de tempo e consumismo.
                A revolução virtual tem me ceifado algumas coisas boas como ler em papel e simplesmente bater papo com alguém de carne e osso. Não quero ser hipócrita e dizer que vou abolir a web da minha vida, ou mesmo jogar meu celular no lixo. Na verdade minha intenção é usar a internet como plataforma para obter algumas informações, trabalho e contato impessoal com pessoas que estão fora de minha intimidade diária. Outro dia mandei a operadora retirar a internet do meu plano de celular. Não quero ficar refém da virtualidade! Não quero postar o lugar onde estou almoçando ou em qual cinema vou, afinal ainda amo essa coisa de anonimato. Definitivamente não quero concretizar, se é possível, a obra de Orwell, “1984”, onde não há privacidade, onde a sociedade vive sobre a força coercitiva e vigilante de uma entidade estatal que a todos vigia.
                Ontem estava na academia e enquanto corria na esteira pensava nas três outras coisas que deveria fazer após sair da ginástica. Meu Deus, que loucura: fazer mercado, lavar roupa, limpar a casa e fazer comida. Tudo isso para uma tarde de sábado. Não posso! Não aguento! Quero curtir minha preguiça, meu sofá e um tabaco bom! Se não der para fazer tudo: limpar, lavar, trabalhar, namorar, escrever, assistir filme, encontrar com os amigos, viajar, passar roupa, cuidar do carro, pagar as contas, dormir, fazer a barba, escutar música, academia, dar aula, fazer comida.... Juro que escolho o que me for mais leve. Se não der tempo, não deu. Fica para amanhã ou depois. Aquele ditado “não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”....que vá ao inferno. Vai ficar prá amanhã! Meu hoje é para mim! E nele sempre estão as pessoas e as coisas que me fazem bem.
                Quando entro nessas catedrais de consumo, os shoppings, confesso que fico meio deslocado. Primeiro porque detesto comer naquelas praças de alimentação onde reina o “food”. Não é apenas comida rápida. É tudo muito rápido. Gosto de me demorar em uma mesa. Aprendi com o cristianismo que a mesa é o lugar do encontro e da partilha. Essas praças de alimentação entram na dinâmica do consumismo. Você tem que comer, beber e sair até às 23 horas porque senão só poderá pegar seu carro no outro dia. Quem quer se encontrar em um shopping pelo amor de Deus? Com hora marcada prá tudo? O consumo se reinifica como sinhô e coloca o tempo como seu capitão do mato que nos chicoteia a todo o momento! Que bela dupla!
                Fora a praça de alimentação existe aquele apelo desgraçado para as compras:
                 “O que você precisa para ser feliz hoje, senhor?”
            “Um perfume? Celular de três mil reais? Quem sabe um sexo fácil? Vai uma trepadinha por cinquenta reais?”
                É insuportável pensar que estamos coisificando nossa felicidade, nosso amor... nossas relações. Hoje tudo pode ser consumido! E o pior talvez nem seja essa oferta de todas as coisas. Talvez o pior seja nos enveredarmos pela triste ilusão de que seremos mais gente quando comprarmos isso ou aquilo. O que se dá é o contrário.
                Não se iludam! Eu uso a internet, não tenho todo tempo do mundo e compro. Todavia tomei uma decisão séria, e Deus me ajude, que seja perene: Usarei a tecnologia, o tempo e o dinheiro em meu favor, afinal o que são eles? Meio? Referência? Papel?
                                                                                                                                                                                                                                        RJ
Belo Horizonte, 26 de maio de 2013.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A renúncia de Ratzinger, por Raphael Juliano




                Mais uma vez vejo um fato histórico que trará consequências inimagináveis para o mundo. Outro dia escrevia que vi a internet nascer e transformar o modo como os seres humanos interagem, seja no trabalho, na família, no anonimato.
                Pois bem, o outro fato é a renúncia de Ratzinger à cadeira de Pedro. Um evento com precedentes históricos que remontam seis séculos atrás, com a renúncia de Gregório XII nos idos de 1400. Confesso que não esperava por isso. Talvez se tivesse acontecido no pontificado de Karol Wojtyla eu não teria sido pego de surpresa. Digo isso porque esperava tudo de João Paulo II. Em toda sua humanidade eu esperava fraqueza, doçura, revisão de posturas, qualidades próprias dos homens de boa fé. De Bento XVI confesso que, em meus prejulgamentos, esperava cada vez mais endurecimento, conservadorismo e nunca revisões. Rever posturas é atitude de gente nobre.
                Creio que não é um momento de crise para a Santa Sé. Creio que será momento de amadurecimento. Momento para repensarem um novo cristianismo. Um cristianismo menos perverso, que vá na contra mão desse evangelicismo protestante desumano e cheio de passes de mágica e palavras de poder e ódio. Se os cristão quiserem manter ilesa a memória do inspirador do cristianismo (Jesus), talvez seja o momento de retomar o caminho feito a sete anos atrás, antes de Wojtyla partir. Talvez seja necessário “regredirmos” à primitividade da doçura do evangelho pregada por outros Joões: o evangelista e o João XXIII.
                Percebo no gesto de Bento XVI humanidade e sabedoria, talvez características que não estivessem presentes em seu pontificado, mas que sinalizaram seu final. A comunidade cristã internacional precisa de novos ventos. Que novos ventos venham, que novas pessoas venham, que caiam os Bentos conservadores e cresçam os Bentos doces e deveras humanos... tão humanos que quando precisarem não temam dizer: “Não dou mais conta!”

p.s. Não creio nas instituições religiosas como aquelas que re-ligam o sacro ao humano, mas não posso negar que tenho um carinho especial pelo catolicismo romano (foi lá que conheci pessoas boas de Deus...grandes amigos).
Raphael Juliano

domingo, 27 de janeiro de 2013

Impressões sobre o filme Django Livre, de Quentin Tarantino




            No último sábado tentei assistir “Django Livre”, porém só consegui ingressos para quarta-feira dia vinte e três. Confesso que estava ansioso para rever Tarantino por detrás das câmeras. Ultimamente tenho revisitado seu “Cães de Aluguel” para matar a saudade.
            O filme começa com um Django submisso e acorrentado, completamente fora de si (não no sentido de insano, mas de senhorio) para mostrar o amadurecimento daquele que se tornaria nas palavras do Dr. Schultz (Christolph Waltz) “o gatilho mais rápido do Sul”. Jamie Foxx se investe de uma pseudo pureza estranha no início da película e é levado pelo Dr. King Schultz a “sujar as mãos” naquele cenário de escravidão western. A percepção que se tem é a de que Django se liberta da hipocrisia silenciosa em uma América escravista e dá vazão a toda sua violência interesseira. Isso fica bem explícito quando em uma cena onde um escravo é comido por cães (algo especialmente tarantiniano) e o Dr. Schultz tenta salvá-lo, Django (Jamie Foxx) não demonstra sentimentos de compaixão e ao ser interrogado pelo personagem de DiCaprio sobre sua indiferença responde: “Estou um pouco mais habituado a América do que o Dr. King”. Talvez Django seja o representante mais farto de todo um passado sombrio e repugnante da América. Isso porque não existem mocinhos e vilões no filme. E Django definitivamente não é um mocinho!
            Na verdade foi Christolph Waltz quem mais me impressionou na trama. Apesar das excelentes encarnações de Samuel L. Jackson, Leonardo DiCaprio e Foxx, Waltz conseguiu dar um tom elegantemente trágico à trajetória do Dr. King. Talvez ele seja a voz mais sóbria da película: um caçador de recompensas que vende os corpos de homens maus. Tarantino consegue de maneira extravagantemente pop demonstrar, através do Dr. King, que a existência é apenas uma questão de circunstâncias. Como todos seus filmes estão entrelaçados como uma espécie de massa compacta é impossível não recorrer a “Bastardos Inglórios” e lembrar que Waltz era um oficial do exército alemão que caçava judeus e agora é um sulista partidário da abolição da escravatura. Talvez seja demais pensar que Quentin Tarantino orquestrou essa ideia. Talvez seja demais pensar que ele só queria homenagear seus filmes prediletos do gênero western spaghetti (bang bang à italiana), mas nada é demais em se tratando de Tarantino: os excessos, as legendas inopinadas, o emendar de um assobio de western com um batidão de hip hop, uma piadinha após os créditos, a vilania pueril e sádica representada por DiCaprio (Candie)... “Django Livre” está plenamente recheado de elementos da filmografia do seu diretor.
            Falando em elemento de direção, vi um Tarantino ainda mais maduro com recortes de cenas epifânicas e construção de personagens extremamente ambíguos, que se demonstram ao longo do filme como verdadeiros seres decadentes em suas escolhas e caminhos. A crítica social em “Django Livre” é bem sutil. Tarantino não se preocupa com isso de maneira explícita. Como grande diretor pop ele nunca quis ser a voz de qualquer consciência coletiva. Ele apenas aponta brevemente sobre a efemeridade das circunstâncias humanas e sobre uma América podre que utilizava os negros para toda sorte de obtenção de lucros: lutas, trabalho, favores sexuais...
            A violência é um ícone à parte. Muito sangue (quase trash - não me crucifiquem) insultando qualquer um que não esteja acostumado ao tipo do cineasta. Existe sangue até nas legendas dos créditos finais. Claro, um elogio do diretor à violência seja ela vinda de onde quer que seja: gratuita ou justificada... é sempre violência!
            Tarantino nos dá a cara como ator em uma ponta de uma cena literalmente explosiva (risos). É melhor que ele continue atrás das câmeras porque é um péssimo ator.
            Alguns estão criticando os personagens femininos fracos e cartunescos de “Django Livre”, mas a proposta não seria exatamente essa? Uma donzela nigger para ser salva por um Django nigger? Concordo que a irmã de Candie é apenas uma sombra no longa para demonstrar a habitação na casa grande por alguém consanguíneo do clã da vilania. Não justificaria o negro Stephen (Jackson) viver ali sozinho. Ele precisava ser serviçal de alguém! E aí entra a Srta. Candie.
            Li alguma coisa a respeito do filme em um blog que dizia que o forte de Tarantino não são os diálogos, e sim a violência. Discordo! Todas as cenas tarantinescas são precedidas de longos diálogos onde prevalecem sarcasmo, elegância e, sobretudo revelação: a revelação do porvir. Mas isso é só para os mais atentos. Digo isso porque pressenti a morte de vários personagens do filme depois da fala de um deles: “Eu não pude resistir”. Eu estava muito atento nas três horas de filme!!
            Sei que sou suspeito para escrever sobre Tarantino, mas qualquer excesso é coisa de um mero admirador.
                                                                                                                         Raphael Juiano  27/01/13
           

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

2012... 2013...



"É preciso recomeçar sempre!"
Lembro-me sempre dessa frase de Teresa D'Ávila. Creio que neste momento quando reverenciamos o deus tempo é importante ter em mente recomeçar. Alguns outros povos não fazem nenhuma festividade quando no começo de um novo ano. Talvez porque eles sejam mais bem resolvidos do que nós de cultura judaico-cristã. Talvez porque o nosso posicionamento na Terra nos faça mais bem resolvidos... Oriente... Ocidente. Como filho de uma cultura, sinceramente, nunca gostei de comemorar inícios e términos de ano algum. Confesso que de 2012 para 2013 foi diferente. Comemorei minha sujeição ao tempo e às circunstâncias. Comemorei vida e morte. Alegria e dor. Continuo sem entender bem os motivos da celebração universal, mas para mim foi um período de parar... Olhar ao redor e perceber o que poderia ser mudado. Foi uma festa para repensar algumas questões e ressignificar a existência. Sou "caçador de mim" e não posso estancar essa vontade de saber mais sobre Raphael... Sobre quem é Raphael. Não posso estancar essa vontade louca de mim! 
Hoje desejo recomeçar. Desejo continuar minha busca pessoal. Desejo continuar buscando as minhas verdades, porque a Verdade, como diria Quintana, "vem comigo, também estou em busca dela".

Que 2013, ou qual ano seja deveras este (risos), possa ser um ano melhor para todos que amo... e para os que não amo também! E quando vierem os momentos dificéis, que possamos nos lembrar de recomeçar. Haverá um 2014... e sempre haverá um motivo para recomeçar.
Abraços.