quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Esse mundo não me alegra

           

 "Esse mundo não me alegra." Foram as palavras de um amigo ontem. Ele tem seus motivos, mas e nós temos os nossos? Então vou mencionar dois motivos pelos quais esse mundo não me alegra.

Na última quinta-feira Patrícia Moreira, de vinte e três anos, gritava em alto e bom som durante a derrota do Grêmio para o Santos: "macaco". Ela referia-se ao goleiro Aranha, do time perdedor.
Ontem um garoto de doze anos foi barrado pela diretora da escola Municipal onde estuda, no Rio de Janeiro, por ter aderido ao Candomblé. O menino usava guias, contas coloridas usadas no pescoço que distinguem a qual orixá pertence cada indivíduo adepto da religião.
            
Dois motivos fortes para não me alegrar com esse mundo. Aqui as pessoas parecem não ter o direito de ser aquilo que são ou aquilo que escolheram ser. Todavia o que mais me assusta é o fato dessa segregação, que parte de uma ideia padrão, muitas vezes se originar no espaço do lúdico, sobretudo do lúdico que vendemos, o futebol, bem como no ambiente público, do Estado.
           
 Sim, Patrícia, é humilhante chamar um negro de macaco tanto quanto seria chamar uma branca como você de vaca. Percebe?
            
Sim, senhora Diretora da Escola Municipal Francisco Campos, é uma aberração proibir um aluno de entrar no educandário por causa da sua religião, tanto quanto seria não pensar em uma política salarial justa para sua categoria. Percebe?
           
 Questões como o racismo ou a fragilidade da laicidade do Estado já deveriam ser pautas superadas. Procuro argumentos em favor das duas mulheres e não encontro. O anonimato do estádio de futebol? A historicidade de nossa cultura judaico-cristã? Não. Não é aceitável. E o pior de tudo é ter a plena consciência que existem muitas Patrícias. É saber que o crucifixo aparece ostensivo na entrada principal de muitos espaços públicos, apartando do direito quem precisa dele. Tempos difíceis!
            
Esperança? Se tenho esperança? Duas coisas me fazem querer ter esperança. São resoluções pessoais. A primeira é não torcer para time de futebol e a outra é não votar em candidatos religiosos. Então o que tenho para hoje, como diria o saudoso Rubem Alves, "é a possibilidade da esperança."
            

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

E antes do PT era o PSDB...



                    Uma salada mista! É isso que a política brasileira se tornou. Lembro do meu tempo de militância, quando achava que podia fazer muito. Apoiei Márcio Lacerda (PSB) e Roberto Carvalho (PT) para a prefeitura de Belo Horizonte em 2008. Eu era assessor de um candidato a vereador do PSL. Por trás disso tudo estava Aécio Neves, à época governador pelo PSDB, e Fernando Pimentel (PT).
            Todos ganharam. Dois anos depois eu pedi minha demissão. Meus sonhos com a política envelheceram no meio dessas siglas.
            Meu professor de política dizia que Maquiavel enxergava o poder como um instrumento para o governante (príncipe) defender seu povo a qualquer custo, mesmo com crueldade e/ou trapaça. Essa mistura entre os partidos políticos no Brasil me faz pensar que a política se tornou uma carreira. Cartilhas se misturam em nome do poder. Cheguei a ouvir "eu não quero dinheiro, quero é poder". Por que? Ora, hoje o instrumento de defesa da população se tornou mecanismo para a sua própria conservação. Da perspectiva carreirista, os nossos governantes querem poder para se manterem onde estão, no poder. E aí qualquer argumento vale, desde a montagem da figura messiânica de Lula nas eleições de 2002, para que enfim o PT chegasse ao governo, até a morte de Eduardo Campos.
            Pêra, uva, maça ou salada mista? Parece que ninguém consegue mais distinguir os sabores, então é salada mesmo! Aécio hoje disputa a presidência da República pelo PSDB e Pimentel o governo de Minas pelo PT, apoiando Dilma para Presidenta na mesma legenda. Como tudo mudou desde 2008.
            Quando falo que vou votar em determinada legenda, alguns colegas zombam de mim: "vai perder seu voto, é?" Eu simplesmente respondo: não, vou tentar sentir o sabor de uma fruta só. Mas depois eu me pergunto: será possível?
  

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Bukowski e a decadência


                É o terceiro livro de Charles Bukowski que leio: Mulheres, depois de Cartas na Rua e Factótum. Penso que a grande sacada do escritor alemão apaixonado por Los Angeles é descrever a decadência com um charme que nos empolga, talvez porque esta seja a sina de todos nós. A cidade e as pessoas para Bukowski, que usa Henry Chinaski como seu alter ego, estão em constante desconstrução. Não há enlatamentos. Os vícios acabam sendo um componente idêntico à virtude no comportamento humano para o velho Chinaski.
                A cultura judaico-cristã, assim como outras em suas épocas e geografias, fez com que nós ocidentais desprezássemos o que é humano e natural. Sei que isso é um tormento para a maioria das pessoas. O controle social às vezes é tão asfixiante quanto fumaça, por isso insisto com quem converso: "leiam Bukowski".
                Evidentemente a decadência tem sua tragedia. Conheço bem o centro de Belo Horizonte. Conheço pessoas que moram e moraram ali. Conheço pessoas que vivem à margem, decadentes, quebrando-se sob o som do caos. Alcoólatras, drogaditos, garotas e garotos de programa, ladrões, muambeiros, travestis, todos sentindo o peso da cidade e dando a esta a mesma energia, de maneira inversa e proporcional. O fato é que o trágico faz parte do universo humano e o escritor sabe como narrar isso sem ter que apelar para uma saga de vampiros (nada contra, adoro vampiros). Os diálogos curtos atolados de desdém fascinam qualquer leitor. Creio que ele soube o que escrever porque soube o que viver. O grande velho safado sentiu a beleza da decadência e a encarnou no papel.

                Talvez minha predileção por ele seja devido a isso, como os gregos, mas de sua maneira, Charles Bukowski enxergava a beleza da tragedia na decadência.

sábado, 21 de junho de 2014

O caos gera novas realidades, revoluções não.

     Filipe Peçanha foi conduzido até uma Delegacia portando, em tese, um explosivo (carregador de bateria). Penso que um MacGyver poderia fazer de um carregador de mídia qualquer, um explosivo mortal, mas não é o caso de voltarmos décadas atrás com o seriado. Tudo se passa no aqui, no agora desse colapso que é compartilhar o planeta. Na verdade partilhar a Terra não é uma de nossas características mais nobres.
     Voltando ao episódio do Peçanha, o que percebo é uma clara demonstração do NINJA em provocar o policial e conseguir uma linda filmagem sensacionalista (estilo rede Globo). Todos estavam sendo revistados e nenhum policial tem como saber quem foi ou não revistado. A busca pessoal é para a segurança do todo, pois se um crime acontece o braço armado do Estado já falhou porque seu papel principal é prevenir, se antecipar ao evento crime.
     Evidente que o jornalista não deveria ter sido conduzido por ter consigo um carregador eletrônico, mas a alegação do policial certamente será de que ele não possui perícia para saber se aquilo era ou não um explosivo. Da mesma maneira que se faz no caso de apreensão de entorpecentes: "foi recolhido do cidadão qualificado a quantia de x invólucros de substância branca semelhante à cocaína." Assim, o provocador teve a resposta que queria do provocado. É Newton: ação e reação. Infelizmente uma reação, a meu ver, disparatada. Mas é essa a relação da sociedade civil com o Estado: um disparate.
     A suspeição é abstrata. Sempre será. Várias vezes fui abordado por policiais e não questionei o porquê. É o artigo 244 do Código de Processo Penal. A fundada suspeita é gerada pelo arcabouço pessoal do policial. Não deveria, mas não temos critérios mais objetivos na lei. O jornalista talvez devesse provocar o legislador, e não o aplicador.
     Os movimentos Fora do Eixo e Passe Livre, bem como a Mídia Ninja são uma sociedade civil que admiro, todavia essa vontade revolucionária me incomoda. O tempo das revoluções acabou. Talvez surtisse mais efeito se tivessem vontades de caos. O caos sim, gera novas realidades. Talvez Filipe fizesse bem em ter levado consigo dinamite!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Justiça! (in)Justiça?

      Fabiane Maria de Jesus foi a última vítima/acusada/condenada da justiça que explode nas ruas. Existe uma sensação de que a justiça enquanto sistema de fatos típicos e suas penas esteja frágil, incapaz de cumprir seu papel no contrato social. Concomitantemente a isso existe uma forte vontade popular de liberdade, de poder ir, vir, voltar e fazer o que der na telha. Parece que o velho contrato hobbesiano está ruindo.
     Estamos no olho do furação. Todos querem mais segurança. Todos querem mais liberdade. Mais segurança mesmo que seja uma segurança privada e sem pactos. Mais liberdade mesmo que seja uma liberdade disparatada e sem empatia.
     Segurança se faz com pactos, com metas, com direitos e deveres. Segurança se faz através do Estado. Liberdade se cria em ambientes saudáveis onde a empatia e o bom senso (lado positivo do senso comum) sejam estimulados.
     No contrato social mais segurança produz menos liberdade e mais liberdade redunda em menos segurança. Talvez devêssemos rever nossos conceitos sociológicos e políticos. Talvez sejamos capazes de criar um novo modelo, já que este está falido. Sim, está falido. A falência se mostra em um Estado policialesco que se posta como inimigo da sociedade civil e em uma mobilização popular que não legitima o Estado de Direito na qual se insere. Nessa perspectiva penso que ambos erramos. O Estado deveria ser a extensão de seu povo. A sociedade civil deveria se sentir Estado. O que impossibilita isso? Tanta coisa. Poderia elencar várias: história golpista do país, sistema eleitoral (voto obrigatório), uma reforma política que nunca se faz, tráfico de influências nas casas legislativas, polícias militarizadas, códigos legais ultrapassados, uma política assistencialista que só conseguiu gerar renda e ainda não gerou competências em mais de doze anos de gestão... Enfim temos que repensar, sobretudo após os episódios de linchamento que o país viu nas telas dos veículos de comunicação. Temos que repensar acima de tudo nossos conceitos de segurança, liberdade e justiça.
     Que tipo de justiça se faz com as próprias mãos? Que tipo de justiça se faz pelo Estado? A ausência de segurança me dá licença para praticar a minha justiça? A liberdade me permite qualquer manuseio da (in)justiça?
     Em 1920 Ruy Barbosa, paraninfo da turma dos formandos da turma da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, falou algo que retumba em mim quase sempre: "Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desiguadade flagrante, e não igualdade real." Nessa bagunça que se faz segurança e liberdade no Brasil, não sei que modelo de (in)justiça desejamos, mas o princípio descrito na Oração aos Moços pode nos dar um norte e evitar que Dirceus tenham regalias na Papuda e Fabianes sejam condenadas sem o devido processo legal.  RJ          

quinta-feira, 27 de março de 2014

A certeza faz as pessoas marcharem e me dá medo

     Não quero julgar ninguém. Julgar é uma tarefa difícil e não quero fazê-la. Mas três pessoas me fizeram pensar muito essa semana: Paulo, ex-assassino de cristãos. Hitler, assassino de judeus, homossexuais, negros... E Paulo Malhães, coronel reformado do Exército Brasileiro e assassino de subversivos. Eles me fizeram perder o sono, algo que já é de praxe e só precisa de um ponta pé, pensando no benefício da dúvida.
     Não gosto das cartas de Paulo às primeiras comunidade cristãs. Elas me parecem distintas da liberdade espiritual que as biografias de Jesus narram. Então prefiro as quatro biografias do Messias cristão às epístolas paulinas. Todavia parece-me que dos três personagens citados acima apenas Paulo se permitiu o benefício da dúvida, parando de matar cristãos e agregrando-se à eles. Hitler, não assimilando que poderia estar errado em suas convicções tirou a própria vida, segundo consta nos livros de História e Paulo Malhães ainda hoje não se permite tal epifania e afirma que matar e torturar pessoas de "alta periculosidade" pode ser uma política de Estado.
     Tenho medo de encontrar pessoas como o Paulo, o coronel, neste século. Existindo pessoas como ele não temos grandes perspectivas sustentáveis. Não pretendo que todos pensem como eu. Mas gostaria muito que todos se permitissem o benefício da dúvida. A dúvida me dá a firme e contundente visão de que a minha certeza é apenas uma dentre tantas outras, e que ela é só minha. A dúvida de que poderiam existir religiões e deuses além dos de Israel, teriam evitado a morte de milhares de cristãos. A dúvida de que ciganos, negros, gays, judeus... não eram inferiores aos alemães, teria evitado a morte de aproximadamente 11 milhões de pessoas pertencentes a essas minorias, sem contar o número de mortos nos campos de batalhas da Segunda Guerra. 
     A dúvida poderia evitar que um homem de alta patente das Forças Armadas desse país continuasse pensando que torturar e matar pessoas que pensam diferente seja algo corriqueiro. Tempos difíceis! Tempos nos quais ainda marcham enquanto família, com deus e pela liberdade. Então me pergunto: que tipo de família? Que deus? Que espécie de liberdade?
     Olha, já fui católico, protestante, maçom, petista... Já estive em muitos lugares. Quando me permiti duvidar fui ficando vazio de muitos daqueles lugares. Percebi que quando minhas certezas se tornaram a certeza, eu acabei sendo menos gente. Menos humano. Passei a ter coragem de duvidar. Sim, para duvidar temos que ter coragem, afinal a certeza é um lugar quente e confortável. 
     Pergunto-me: e se eles tivessem se permitido o benefício da dúvida? E se a coragem não tivesse sido tardia em Paulo de Tarso? E se Hitler tivesse se sentado à mesa com um judeu para jantar e bater papo? E se Malhães se desse à dignidade do sentimentalismo e tivesse em algum momento daquela ditadura duvidado do que estava fazendo? Talvez três agonias tivessem sido evitadas. Talvez várias verdades se abraçassem. 
     Tenho medo de pessoas que não duvidam. Tenho medo de certezas absolutas, elas costumam acender fogueiras.


http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/videos/t/edicoes/v/coronel-reformado-confessa-ter-torturado-e-assassinado-presos-politicos-durante-a-ditadura/3239079/
                                                                                                RJ

segunda-feira, 17 de março de 2014

As pessoas continuam jogando papel no chão

     Sim, faz tempo que não escrevo neste pedaço de tela. Pelo menos aqui no blog. Tenho me dedicado aos contos e ao romance que talvez nunca saiam. Mas hoje decidi escrever aqui. Decidi escrever sobre meu cansaço. Fiquem tranquilos. Não é um desabafo. É apenas a ludicidade teimando mais uma vez em mim.
     O Brasil foi tomado por um turbilhão de acontecimentos, é verdade, todavia existe uma desinformação precedida de # (que só há alguns dias descobri o que significa graças a um amigo) me cansando. 
     Respeito a todos e às suas opiniões, mas me cansa a Raquel Sherazade com sua contundência de senso comum. Sim, o senso comum dela é um entojo. Cansa-me o joguinho tosco entre tucanos e lulistas. Sabem, estou cansado de manifestações, que em junho de 2013 me deixaram esperançoso. Um clássico entre Cruzeiro e Atlético reúne gente da mesma maneira. 
     Estou cansado do Beijinho no Ombro e do Lepo Lepo, não enquanto manifestação cultural de umas gentes, mas como um hino matutino. Já estou até cansado desse ano eleitoral. Acreditam que, como fui ativista político, já estão chegando emails e telefonemas de candidatos que nem conhecem as cartilhas de seus partidos? Cansa-me demais ver o Estado policialesco e a Sociedade Civil se degladeando. E essa nossa mídia? Maniqueísta e bipolar. Nossa! Como ela me cansa. 
     E assim vamos nós, alguns entram em um jogo qualquer dessa desinteligência toda. Outros nem sabem o que acontece. E ainda há os que se cansam. Culpados? Inocentes? Nada! O ser humano no máximo pode ser incoerente. Somos múltiplos, não é? Quero esse adjetivo para me justificar: sou múltiplo. 
     Desejo apenas que no meio de nossas incoerências nos encontremos e façamos algo pelo nosso canto de universo. Que apoiemos a contundência de Sherazade, ou não. Que saibamos votar em tucanos ou lulistas, ou mesmo que participemos de uma passeata qualquer cônscios daquilo que queremos, mesmo que seja a vitória de um time de futebol. Desejo que o Lepo Lepo não seja a música que me desperte para trabalhar e que os políticos parem de me ligar. Desejo que o Estado e a Sociedade Civil se sentem à mesma mesa e que a mídia não tente manipular, pelo menos a mim. Isso me irrita!  Desejo que todos se encontrem, dentro ou fora do jogo. Talvez até em um blog, apenas observando, de cansados que estão.
     Percebem como ainda, apesar de cansado, resta uma frágil esperança neste que aqui escreve? Frágil mesmo, porque com esse caldo engrossando de (des)informação e com toda a nossa incoerência humana para assimilar tudo isso as pessoas ainda jogam papel no chão. Ver as pessoas jogando lixo no chão: isso me cansa.

                                                                                                             RJ