quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Cadê meu quintal?


Nosso país é uma grande casa onde a maior parte das pessoas não tem a dimensão da rua. Sim, é uma menção a Roberto DaMatta em sua obra "A casa e a rua". Hoje pela manhã enquanto lia jornal vi uma matéria sobre um cidadão que trabalha como policial civil em Brasília. Ele está de uniforme e pula a catraca da portaria de um Hospital. Quando o segurança do lugar repreende a forma como o policial se portou ele é algemado e conduzido à Delegacia.

Certo é que não se trata da atitude de um policial. Eu sempre insisto: é a atitude de um homem (ô racinha, viu!). Nossa espécie dá sinais de falência a todo instante, contudo aqui embaixo do Equador há alguns comportamentos que ainda são mais arraigados. Temos muita dificuldade em separar aquilo que é público do que é privado, a casa da rua. Não conseguimos mais ter limites quando estamos em um ambiente que não é só nosso. O brasileiro tende a levar sua ambiência privada para o espaço comum, da mesma forma que utiliza do poderio que o estado investe no serviço público para satisfazer a interesses pessoais. Além do poder existe um outro mecanismo largamente utilizado por nós: o status. Não mais o policial ou o juiz, agora aquele que diz "sabe com quem está falando?" é um médico ou um jogador de futebol, mas a mistura entre público e privado continua porque na maior parte das vezes quando essa frase é usada por essas pessoas, que não são funcionários públicos, é para fugir da aplicação lei.
É assim que ainda funciona aqui. Podem dizer que mudamos alguns comportamentos. Até acho que pela vigilância digital realmente tenhamos mudado, mas o fato é que a frase "sabe com quem está falando?" nunca deveria ter sido dita.




terça-feira, 14 de outubro de 2014

O direito a não sentir dor




A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) fará consulta pública sobre Resoluções que tem o objetivo de controlar o tipo de parto das mulheres brasileiras. Sim! A ANS diz querer estimular o parto normal, mas as resoluções querem é regular.

No Brasil, na rede particular, mais de 80% dos partos são por cesariana. Mais de 40% dos partos no Sistema Único de Saúde (SUS) são por cesariana. A média geral é superior a 50%, mais de 35% do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

O Ministério da saúde afirma que o parto não é uma questão de consumo, mas sim de saúde pública. A incidência de síndrome respiratória aguda é maior nas crianças nascidas na cesariana, o número de óbitos neonatais também é maior, segundo o MS e a OMS. E lá vem aquela balela de que a vida é um bem inalienável. 

Não sou contra o parto humanizado. Não sou contra o parto normal. Penso que essa é uma decisão que deve ser partilhada entre paciente e médico. 

O Estado quer proteger o direito a vida a todo custo, mas e o direito a não sentir dor? Existem lugares onde o Estado não cabe.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A esperança enrugada é melhor que a velha privataria

Lembro-me quando Lula foi eleito: "a esperança venceu o medo". E de lá para cá muita coisa mudou. Como qualquer ideologia político partidária o lulismo e o petismo tomaram volume. E o que esperávamos? Uma política de bons moços? As oligarquias que mandavam e desmandavam no país desde a abertura democrática nunca foram compostas por bons moços. Para garantir a governabilidade o PT teve que entrar no jogo. É assim que funciona. Ainda é assim! Muitos erros, sem dúvida. Quem quiser se salvar tem que pular desse barco. 

Minha opinião pessoal é de que não está ótimo. Todavia pode voltar a ficar ruim. Não votei em Dilma. Ela não conseguiu fazer a reforma política que o Brasil precisa. Sim! Meu voto foi pela abolição do atual sistema. Não foi um voto de protesto. Eu e meu pequenino voto queríamos desestabilizar o que está posto. Evidente que não consegui. Minha Luciana volta para suas lutas diárias e agora tenho que me decidir entre a social-democracia e a enrugada esperança trabalhista. 

Não duvido da capacidade técnica de Aécio. Não duvido de sua equipe e gestão. Eu duvido é de suas intenções. Vamos voltar a um Brasil de poucos. Vamos voltar para as mãos daqueles que geriram esse país por mais de trinta anos e nunca se lembraram do povo, de quem está na base da pirâmide. Aécio Neves destruiu a educação de Minas Gerais, manipulou números para demonstrar indicadores positivos e sucateou a saúde. Sou mineiro. Sei do que estou falando.

Dilma gerou renda, falta avançar e gerar competências. É para isso que votarei nela. Vou permitir mais uma vez que a esperança vença o medo.

Não dá para ficar em cima do muro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A crueldade nossa de cada dia





Uma das primeiras leis que estudei durante meu período de formação como profissional de segurança foi a lei 9.455/97, aquela que define os crimes de tortura. Lembro-me que questionava, absorto em mim, sobre a necessidade de uma lei que protegesse as pessoas de tal crime. Questionava-me não em relação a lei em si, mas sobre o fato de que existiam pessoas capazes de submeter outro ser humano à sofrimento físico e mental sob alegações diversas: castigo, obtenção de confissão ou mesmo de maneira preventiva.

Durante mais de uma década percebi que existem pessoas assim além dos livros de História. Negros, judeus, ciganos, pobres sempre foram as vítimas preferidas desse delito, todavia a crueldade narrada pelos historiadores, desde o holocausto até o apontamento das ditas classes perigosas (conceito sociológico ultrapassado), se materializa no nosso dia a dia.

Em Araçatuba, interior de São Paulo, uma menina foi torturada pelo padrasto, Maurício Scaranello, e pela mãe, Sara de Andrade Ferreira. Eles ofereciam cebola para a criança alegando ser maçã e a impediam de dormir. Os dois torturadores já foram indiciados.

Agora pergunto-me qual o perfil desse casal? Até a descoberta do crime, no início deste mês, eram criminosos que passavam despercebidos pela comunidade. Não há no perfil deles nada que indique as atitudes das quais são acusados, a não ser uma característica fundamental: são humanos.

Quando escreve o mito do Cocheiro, Platão compara a alma a uma carruagem puxada por dois cavalos, um branco (de gênio difícil) e um negro (o do prazer). O corpo humano é a carruagem, e o cocheiro (razão) conduz através das rédeas (pensamentos) os cavalos (sentimentos).  Para o filósofo, cabe ao homem através de seus pensamentos conduzir seus sentimentos, pois somente assim ele poderá manter-se sóbrio. Parece-me que as rédeas andam soltas!

Hoje eu entendo bem a lei e sei que existe maldade por aí. Nunca presenciei a personificação do mau como as religiões narram. Contudo vejo todos os dias o que os da nossa espécie são capazes de fazer. Um amigo sempre me diz que existem mais pessoas boas do que ruins. Eu discordo. Existem mais pessoas más do que boas, e elas precisam infligir ao outro sua cota diária de crueldade, seja através de uma fofoca de canto de escritório, seja oferecendo cebola à uma criança.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Rio São Francisco tornou-se descartável






 A principal nascente do Rio São Francisco em São Roque de Minas, na Serra da Canastra, está praticamente seca. Um dos mais importantes rios do Brasil, com 2.700 quilômetros de extensão, dá mais um sinal de alerta à humanidade.

A história tem mostrado que uma de nossas características mais evidentes é não saber conviver com o planeta. O afã desenvolvimentista e consumista do ser humano tem impactado o ambiente que nos abriga. Outrora consumido em guerras, ainda presentes, todavia redimensionadas, a Terra hoje sucumbi sob a égide de uma lógica perversa: a descartabilidade.

Na direção contrária à permacultura, sustentabilidade social e economicamente justa, os assentamentos humanos internalizaram uma relação fast food com o espaço no qual vivem. Sim, parece que não há tempo. A pressa impera. Temos que explorar o planeta até a escassez dos recursos que não se renovam. E tudo isso em nome de uma fictícia qualidade de vida. Não andamos mais a pé. Não subimos escadas. Esquecemos nossas bicicletas nos porões. Gastamos mais água para produzir uma garrafa de plástico de 500 ml, do que a própria quantidade de água contida ali. Não há lixeiras a cada quarteirão e isso nos dá o falso direito de jogarmos o papel de bala no chão. Temos três carros na garagem da mesma casa e a cada amanhecer cada um pega o seu veículo para um destino, que tantas vezes é na mesma direção. Compramos um par de calçados a cada mês como se fôssemos centopeias. E tudo isso sem percebermos que estamos levando nosso habitat ao limite. A Terra é um sistema fechado e todas as transformações naturais que presenciamos não são normais porque ela não troca matérias com o universo.

Não se trata aqui de ser um 'eco chato', mas sim de observar que existe uma relação desigual. E nas relações desiguais há duas tendências básicas: ou o que é mais exigido expurga o outro quando não dá conta, ou o que mais exige sucumbe quando não é satisfeito. Nesse contexto, qualquer um dos caminhos é perigoso.

Descartamos as estações do ano, descartamos a camada de ozônio, descartamos a mobilidade e agora descartamos o Velho Chico. Achamos que podemos descartar a 'mãe natureza', mas estamos enganados. Há tempos ela nos percebe como à um corpo estranho, e lentamente vai corrigindo seu erro. Vai nos expurgando.

Se eu fosse a Terra não seria tão piedosa, corrigiria tudo antes que descartemos de vez a foz do São Francisco em seu belo encontro com o mar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Esse mundo não me alegra

           

 "Esse mundo não me alegra." Foram as palavras de um amigo ontem. Ele tem seus motivos, mas e nós temos os nossos? Então vou mencionar dois motivos pelos quais esse mundo não me alegra.

Na última quinta-feira Patrícia Moreira, de vinte e três anos, gritava em alto e bom som durante a derrota do Grêmio para o Santos: "macaco". Ela referia-se ao goleiro Aranha, do time perdedor.
Ontem um garoto de doze anos foi barrado pela diretora da escola Municipal onde estuda, no Rio de Janeiro, por ter aderido ao Candomblé. O menino usava guias, contas coloridas usadas no pescoço que distinguem a qual orixá pertence cada indivíduo adepto da religião.
            
Dois motivos fortes para não me alegrar com esse mundo. Aqui as pessoas parecem não ter o direito de ser aquilo que são ou aquilo que escolheram ser. Todavia o que mais me assusta é o fato dessa segregação, que parte de uma ideia padrão, muitas vezes se originar no espaço do lúdico, sobretudo do lúdico que vendemos, o futebol, bem como no ambiente público, do Estado.
           
 Sim, Patrícia, é humilhante chamar um negro de macaco tanto quanto seria chamar uma branca como você de vaca. Percebe?
            
Sim, senhora Diretora da Escola Municipal Francisco Campos, é uma aberração proibir um aluno de entrar no educandário por causa da sua religião, tanto quanto seria não pensar em uma política salarial justa para sua categoria. Percebe?
           
 Questões como o racismo ou a fragilidade da laicidade do Estado já deveriam ser pautas superadas. Procuro argumentos em favor das duas mulheres e não encontro. O anonimato do estádio de futebol? A historicidade de nossa cultura judaico-cristã? Não. Não é aceitável. E o pior de tudo é ter a plena consciência que existem muitas Patrícias. É saber que o crucifixo aparece ostensivo na entrada principal de muitos espaços públicos, apartando do direito quem precisa dele. Tempos difíceis!
            
Esperança? Se tenho esperança? Duas coisas me fazem querer ter esperança. São resoluções pessoais. A primeira é não torcer para time de futebol e a outra é não votar em candidatos religiosos. Então o que tenho para hoje, como diria o saudoso Rubem Alves, "é a possibilidade da esperança."
            

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

E antes do PT era o PSDB...



                    Uma salada mista! É isso que a política brasileira se tornou. Lembro do meu tempo de militância, quando achava que podia fazer muito. Apoiei Márcio Lacerda (PSB) e Roberto Carvalho (PT) para a prefeitura de Belo Horizonte em 2008. Eu era assessor de um candidato a vereador do PSL. Por trás disso tudo estava Aécio Neves, à época governador pelo PSDB, e Fernando Pimentel (PT).
            Todos ganharam. Dois anos depois eu pedi minha demissão. Meus sonhos com a política envelheceram no meio dessas siglas.
            Meu professor de política dizia que Maquiavel enxergava o poder como um instrumento para o governante (príncipe) defender seu povo a qualquer custo, mesmo com crueldade e/ou trapaça. Essa mistura entre os partidos políticos no Brasil me faz pensar que a política se tornou uma carreira. Cartilhas se misturam em nome do poder. Cheguei a ouvir "eu não quero dinheiro, quero é poder". Por que? Ora, hoje o instrumento de defesa da população se tornou mecanismo para a sua própria conservação. Da perspectiva carreirista, os nossos governantes querem poder para se manterem onde estão, no poder. E aí qualquer argumento vale, desde a montagem da figura messiânica de Lula nas eleições de 2002, para que enfim o PT chegasse ao governo, até a morte de Eduardo Campos.
            Pêra, uva, maça ou salada mista? Parece que ninguém consegue mais distinguir os sabores, então é salada mesmo! Aécio hoje disputa a presidência da República pelo PSDB e Pimentel o governo de Minas pelo PT, apoiando Dilma para Presidenta na mesma legenda. Como tudo mudou desde 2008.
            Quando falo que vou votar em determinada legenda, alguns colegas zombam de mim: "vai perder seu voto, é?" Eu simplesmente respondo: não, vou tentar sentir o sabor de uma fruta só. Mas depois eu me pergunto: será possível?