quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quem é que vai limpar nossa privada?

Folheando as páginas da internet no dia dois deste mês li uma matéria no jornal Estado de Minas na qual dizia que o Papa e outros líderes religiosos assinaram um acordo pela erradicação da escravidão até 2020. Quando li a manchete confesso que fiquei pensativo. Lembrei-me do processo, gradual, de abolição do trabalho escravo que se iniciou no Brasil em 1850. É, não acabou. Nem aqui nem lá fora. Ainda exploramos o outro. Ainda queremos ganhar dinheiro sobre o trabalho alheio, com o menor esforço possível.

Quando o Brasil regulou a atividade de empregada doméstica, li enxurradas de mensagens, impregnadas pelo senso comum, de que seria impossível manter uma "secretária" (que eufemismo estúpido), pagando salário mínimo e benefícios. Na verdade, elas sempre deveriam ter sido tratadas como qualquer trabalhador, mas nós, em nome do papel ao qual chamamos de dinheiro, deliberadamente escolhemos explorá-las. Sim, a escravidão está em nossos quintais, nos nossos sítios, nas nossas lanchonetes, no restaurante onde almoçamos, nos supermercados onde compramos. Basta parar um minuto e perceber ao redor. A todo momento tentamos explorar o outro. A todo momento tentamos lucrar. Ou você acha que trabalhar aos domingos e feriados, de 10 as 22 horas, com folga apenas na segunda-feira, para ganhar oitocentos reais por mês não é trabalho escravo? Não. Não é mentira. Convivo com pessoas que são exploradas assim. E constantemente elas se perguntam se é melhor ganhar isso sendo exploradas aqui (em sua terra natal) ou ganhar um pouco mais em libras e serem exploradas em Londres, trabalhando vinte horas por dia (e por noite).

Francisco está certo. Temos que continuar o processo de abolição do trabalho escravo. Contudo o prazo está apertado - eita Papa apressado. O ano praticamente acabou e, pelas contas dele, temos cinco anos de luta pela frente. Admiro o otimismo de Bergoglio. Mas talvez nunca erradiquemos o trabalho forçado e o tráfico de pessoas para tal. A nossa lógica é outra! Afinal, quem é que vai limpar nossa privada?


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Hoje eu decidi molhar os pés



Hoje é uma sexta de noite chuvosa em Belo Horizonte, final de novembro, dia vinte e oito, e a chuva parece enfim querer chegar. Para mim, ela anuncia possibilidade de renovação, possibilidade de que não aconteça racionamento de água. Mas anuncia também a pressa da memória das pessoas, a pressa da existência consumida.

Quando saí do trabalho saquei meu pequeno guarda-chuva da mochila, ciente de que iria me molhar. Vi tanta gente correndo pela rua! Claro, é um desejo legítimo: não se molhar. Então me lembrei de uma conversa que tive há dias com um amigo sobre como seria bom tomar um banho de chuva nesses tempos de seca. Lembrei-me das pessoas reclamando do calor e do preço do limão (a caixa subiu 43%). Continuei meus passos lentos em direção ao metrô. Eu era empurrado e olhado com estranheza por causa da minha lentidão. Os pés já estavam molhados, então não pulei a poça de água. Já no vagão consegui um lugar para sentar e, quando tirei meu Júlio Verne para continuar a leitura, percebi que não podia ler, porque tinha uma goteira bem em cima de mim, fechei-o e esperei por meu destino. Desembarquei entre mais correria, com água molhando meus pés.


Compreendo que molhar as meias é horrível. Todavia, às vezes, pode ser um evento profético. Pode significar que teremos terra boa e fartura, mas hoje, não sei o porquê, ninguém se lembrou do calor e da escassez. Como nossa memória tem pressa, muitos de nós se esqueceram do problema anterior, e a chuva se tornou o maior problema do dia. Hoje eu decidi continuar andando devagar e molhar os pés. Desejo um bom Black Friday para os que se esqueceram do calor e do preço do limão. 

P.s.: e a principal nascente do rio São Francisco voltou a jorrar.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Deixem-nos morrer!!

*Imagem da morte jogando xadrez com o cavaleiro, do filme 'O Sétimo Selo'.


A morte de Brittany Maynard foi linda como sua vida. Em sua cama, rodeada por aqueles que ela amava e com a música que ela escolheu. Antes que o câncer cerebral atingisse um estágio no qual a paciente não teria mais autonomia e sua sobrevida fosse garantida pelos médicos e parentes, a moça realizou um suicídio assistido.

Escrevi outro dia sobre o direito ao parto (normal ou cesariana), e a atitude dessa jovem me fez pensar sobre o nosso direito a uma morte digna. Temos dificuldade para falar sobre isso por causa da nossa raiz judaico-cristã. Mas além da mitologia da religião, que tenta eternizar nossa existência, a medicina e sua ética, afetada pela mesma matriz, tentam prolongar a todo custo a vida dos doentes terminais. Recentemente vi um garoto de pouco mais de vinte anos, que lutava contra um câncer, ficar em carne viva em cima de uma cama, recebendo cuidados paliativos, porque não nos permitimos discutir tais questões. Ele estava entubado, inconsciente e sequer podia receber os carinhos da mãe, porque ao menor toque, a pele se desmanchava. Não estamos falando aqui de pessoas que têm possibilidades de terapia. Estamos falando do fim das possibilidades e, nessa perspectiva, existe um pudor funcional em todos nós: temos dificuldade em falar da finitude.

O Conselho Federal de Medicina, em 2012, publicou uma resolução chamada de Diretiva Antecipada de Vontade. O objetivo é de que o paciente registre seus valores e princípios e, de maneira clara, especifique os procedimentos aos quais aceita ser submetido. O documento precisa ser registrado em cartório, e seu declarante tem que ter um procurador. Contudo ainda existe um longo caminho a ser trilhado em todo o mundo acerca do assunto. A própria Brittany teve que se mudar da Califórnia para o Estado de Oregon para se beneficiar da lei do suicídio assistido. Ela, que antes de morrer,  esteve no Vietnã, em Camboja, em Laos, na Cingapura e na Tailândia. Que trabalhou um verão na Costa Rica e que viajou para a Tanzânia, para escalar o Kilimanjaro. Ela que fez aulas de escalada no Equador e mergulhou em Galápagos, em Zanzibar, nas Ilhas Cayman e basicamente em toda ilha que visitou, não pode morrer na terra onde nasceu, porque não nos permitimos falar sobre a eutanásia.

Quando as pessoas quiserem falar sobre o assunto, farei coro com aqueles que pedirão: deixem-nos morrer!


sábado, 25 de outubro de 2014

Vocês vão governar para quem?



O que queríamos ver? Uma conversa sobre os pontos cruciais que precisam melhorar em nosso país.
O  que vimos? O de sempre. Marketeiros manipulando os candidatos de modo que eles fugissem, pelo ataque rasteiro, das principais questões que precisam vir ao debate público. Pouco ou nada se discutiu sobre sustentabilidade, reforma política, o fortalecimento do estado laico, políticas que defendam grupos vulneráveis, a gestão participativa e representativa do SUS e tantas outras pautas.

O jogo político se dá aí: no campo da marginalidade, onde os presidenciáveis tateiam entre o que dizer e o que não dizer. Sim, o jogo, é marginal, diferente da boa e distante política. Já sei em quem vou votar e não farei lobby aqui. Apenas escrevo porque no meio de tudo isso estamos nós, sociedade civil, e diferentemente do que a mídia golpista diz, não estamos em um regime bolivariano. Estamos longe disso. Estamos amordaçados! Nossas perguntas e dúvidas não foram discutidas. 

Faço das palavras de Raquel Landim, repórter especial do jornal Folha de S.Paulo, as minhas:
"Depois de protagonizarem uma campanha de poucas propostas e muitos ataques, que dividiu o país ao meio, vocês serão capazes de adotar uma agenda conciliadora e governar também para a metade do país que não os elegeu? Como?"

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Cadê meu quintal?


Nosso país é uma grande casa onde a maior parte das pessoas não tem a dimensão da rua. Sim, é uma menção a Roberto DaMatta em sua obra "A casa e a rua". Hoje pela manhã enquanto lia jornal vi uma matéria sobre um cidadão que trabalha como policial civil em Brasília. Ele está de uniforme e pula a catraca da portaria de um Hospital. Quando o segurança do lugar repreende a forma como o policial se portou ele é algemado e conduzido à Delegacia.

Certo é que não se trata da atitude de um policial. Eu sempre insisto: é a atitude de um homem (ô racinha, viu!). Nossa espécie dá sinais de falência a todo instante, contudo aqui embaixo do Equador há alguns comportamentos que ainda são mais arraigados. Temos muita dificuldade em separar aquilo que é público do que é privado, a casa da rua. Não conseguimos mais ter limites quando estamos em um ambiente que não é só nosso. O brasileiro tende a levar sua ambiência privada para o espaço comum, da mesma forma que utiliza do poderio que o estado investe no serviço público para satisfazer a interesses pessoais. Além do poder existe um outro mecanismo largamente utilizado por nós: o status. Não mais o policial ou o juiz, agora aquele que diz "sabe com quem está falando?" é um médico ou um jogador de futebol, mas a mistura entre público e privado continua porque na maior parte das vezes quando essa frase é usada por essas pessoas, que não são funcionários públicos, é para fugir da aplicação lei.
É assim que ainda funciona aqui. Podem dizer que mudamos alguns comportamentos. Até acho que pela vigilância digital realmente tenhamos mudado, mas o fato é que a frase "sabe com quem está falando?" nunca deveria ter sido dita.




terça-feira, 14 de outubro de 2014

O direito a não sentir dor




A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) fará consulta pública sobre Resoluções que tem o objetivo de controlar o tipo de parto das mulheres brasileiras. Sim! A ANS diz querer estimular o parto normal, mas as resoluções querem é regular.

No Brasil, na rede particular, mais de 80% dos partos são por cesariana. Mais de 40% dos partos no Sistema Único de Saúde (SUS) são por cesariana. A média geral é superior a 50%, mais de 35% do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 

O Ministério da saúde afirma que o parto não é uma questão de consumo, mas sim de saúde pública. A incidência de síndrome respiratória aguda é maior nas crianças nascidas na cesariana, o número de óbitos neonatais também é maior, segundo o MS e a OMS. E lá vem aquela balela de que a vida é um bem inalienável. 

Não sou contra o parto humanizado. Não sou contra o parto normal. Penso que essa é uma decisão que deve ser partilhada entre paciente e médico. 

O Estado quer proteger o direito a vida a todo custo, mas e o direito a não sentir dor? Existem lugares onde o Estado não cabe.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A esperança enrugada é melhor que a velha privataria

Lembro-me quando Lula foi eleito: "a esperança venceu o medo". E de lá para cá muita coisa mudou. Como qualquer ideologia político partidária o lulismo e o petismo tomaram volume. E o que esperávamos? Uma política de bons moços? As oligarquias que mandavam e desmandavam no país desde a abertura democrática nunca foram compostas por bons moços. Para garantir a governabilidade o PT teve que entrar no jogo. É assim que funciona. Ainda é assim! Muitos erros, sem dúvida. Quem quiser se salvar tem que pular desse barco. 

Minha opinião pessoal é de que não está ótimo. Todavia pode voltar a ficar ruim. Não votei em Dilma. Ela não conseguiu fazer a reforma política que o Brasil precisa. Sim! Meu voto foi pela abolição do atual sistema. Não foi um voto de protesto. Eu e meu pequenino voto queríamos desestabilizar o que está posto. Evidente que não consegui. Minha Luciana volta para suas lutas diárias e agora tenho que me decidir entre a social-democracia e a enrugada esperança trabalhista. 

Não duvido da capacidade técnica de Aécio. Não duvido de sua equipe e gestão. Eu duvido é de suas intenções. Vamos voltar a um Brasil de poucos. Vamos voltar para as mãos daqueles que geriram esse país por mais de trinta anos e nunca se lembraram do povo, de quem está na base da pirâmide. Aécio Neves destruiu a educação de Minas Gerais, manipulou números para demonstrar indicadores positivos e sucateou a saúde. Sou mineiro. Sei do que estou falando.

Dilma gerou renda, falta avançar e gerar competências. É para isso que votarei nela. Vou permitir mais uma vez que a esperança vença o medo.

Não dá para ficar em cima do muro.