quarta-feira, 27 de maio de 2015

Futebol? Isto é dinheirismo!


Sete dirigentes da Fifa detidos por corrupção envolvendo empresas de marketing e transmissão esportiva. O enriquecimento ilícito desses senhores do futebol envolve também a escolha dos países-sede das copas de 2018 e 2022 - Catar e Rússia, em um processo de escolha no mínimo duvidoso.

Entre os detidos está José Maria Marin, ex-presidente da CBF e atual vice-presidente da entidade. 

Definitivamente a corrupção entrou em todas as instâncias da vida humana. Ela parece ser a nossa segunda pele. Desvirtuou até nosso circo, digo, nosso futebol. 

Para não perder a oportunidade sugiro aos manifestantes anti-PT, que ao saírem às ruas não vistam a camisa da CBF. Seria um tanto controverso. Sugiro também aos meus vizinhos que parem de gritar em dias de jogos do Cruzeiro e do Atlético, porque isso é estupidez demais.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A revolução dos bichos e o aniversário do PT



Escrito há setenta anos, o livro "A revolução dos bichos", de George Orwell, me vem à mente quando penso nos trinta e cinco anos do PT.

Na fábula o grande britânico, que era socialista e inimigo de qualquer forma de manipulação política, satiriza a ditadura stanilista humanizando animais. Os bichos tomam a granja e expulsam os homens. Então se instaura uma nova forma de vida para os ora explorados bichos. Todos têm direitos às mesmas frações de água, de comida e de descanso.  Todavia, os porcos, por serem um pouco mais inteligentes, começam a "governar" o reino dos animais e, sob a desculpa de tentarem manter um sistema que 'seria bom para os bichos' se envolvem em homicídios, em notícias falsas e em uma série de mecanismos conhecidos nossos. No fim das contas, a bela história termina com os porcos sentando à mesa, onde outrora só os homens se sentavam, comendo e se embriagando. No fim das contas, os porcos comem com talheres. Na fábula "todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros."

Talvez na tentativa de defender um estilo de vida, uma ideologia, uma religião, um sistema partidário, um partido, uma pessoa... a primeira coisa que fazemos é descaracterizar o que antes protegíamos e torná-lo algo menos igual do que ele jamais teria sido. O sistema político brasileiro é uma bestialidade e os bichos, que um dia prometeram mudá-lo, sentaram-se à mesa e comem com talheres. 

Parabéns PT, "quem te viu e quem te vê"!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O expresso da meia-noite de Archer



Estados Unidos, Japão, Cuba, Camarões, Egito, Emirados Árabes estão na lista dos mais de sessenta países que adotam a pena de morte. No último dia 18 o brasileiro Marco Archer foi executado na Indonésia por tráfico de drogas. Todos já sabemos da história. Ele estava preso desde 2004. E para mim são essas as duas questões que camuflam o oportunismo de todos nós que achamos que foi bem feito ou que somos contra: mais de sessenta países no globo possuem a pena de morte em seus arcabouços jurídicos e o fato do nosso compatriota estar preso há dez anos.

Sim, é oportunismo político, virtual, legal e filosófico voltar o olhar para a Indonésia enquanto o Irã condena à morte estupradores. É oportunismo questionar o arcabouço jurídico dos indonésios enquanto vários países da África e da Ásia executam homossexuais. Todo tipo de opinião isolada nesse contexto parece ser tendenciosa e promíscua. Afetada pela velocidade com a qual as informações chegam para nós e da forma como chegam. Ao invés de tratar a pena de morte como fato isolado na medida em que ela acontece e é noticiada, deveríamos considerar com mais seriedade os tratados internacionais que, não violando as soberanias nacionais, colocam-se como mecanismos de discussão sobre questões que não transcendem culturas, mas ao contrário percebem a riqueza da comunidade global e buscam harmonizá-la. É leviano, nesse momento, se colocar simplesmente a favor ou contra a morte de Archer.

Dez anos! O que nossa embaixada fez por Archer nesses dez anos antes de ser chamada de volta ao Brasil? Seis pedidos de clemência ao que tudo indica. Fez o que tinha que ser feito do nosso ponto de vista jurídico, mas desrespeitou a Indonésia ao se retirar. Desrespeita os que estão nos corredores da morte nos EUA, no Egito (mesmo que não sejam brasileiros) e em todos os países onde temos representações diplomáticas ao não chamá-las de volta ao Brasil. Ou a questão é apenas (não tenho a intenção de ser debochado quando uso a palavra "apenas") Archer? Para mim, soa leviano celebrar tratados internacionais de defesa dos direitos humanos, pedir clemência seis vezes em dez anos, assinar acordos comerciais com diversos países que possuem a pena de morte e retirar o embaixador tupiniquim da Indonésia depois da execução do surfista-traficante.

Quando eu assisti O expresso da meia-noite, saga de um jovem estadunidense que é preso, e condenado a trinta anos de cárcere, quando tenta sair com haxixe da Turquia, senti profunda empatia pelo protagonista. No caso de Marco Archer não. A imprensa, os internautas e o governo brasileiro me fizeram sentir nojo (do episódio). 

Talvez se houvesse seriedade na discussão sobre a pena de morte e o Direito Internacional o expresso da meia noite de Archer teria um outro final.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O ciclo 2014 chega ao seu fim



Já escrevi que sempre estamos tentando submeter o tempo. É a nossa necessidade de imortalização. Isso pode ser bom e pode ser ruim. Quando tentamos submeter o tempo para termos referência do passado e do futuro, considero que seja bom. Mas quando tentamos submetê-lo com essa ideação de nos eternizar, penso que podemos sofrer muito. A eternidade é apenas uma conjectura na qual queremos acreditar.

Nesse afã passam-se doze meses. E o que fica? O que vai? Gosto da perspectiva de tentarmos submeter o tempo fechando ciclos. É preciso termos a consciência de que ciclos devem ser fechados e outros iniciados.

Nos doze meses que se passaram, fiz escolhas e, atreladas a elas, dei fim a inúmeras possibilidades, mas também me abri para a vida abraçando o porvir. Deixei pessoas para trás de maneira sóbria, reencontrei outras e recomeçamos. Conheci novas pessoas que parecem ser incríveis. Decidi minhas posições no trabalho, publiquei meu primeiro livro, escolhi novamente a cidade na qual quero viver por mais um tempo, deixei a barba crescer, sabendo que teria que raspá-la novamente. Beijei, arrisquei-me. Tentei ajudar quem queria ajuda e não ajudei aqueles que preferem seguir sozinhos. Reafirmei meu amor à família e aos amigos e minha cautela para com as instituições. Comecei a ler Kerouac, dei um tempo em Dostoiewski, chorei por Rubem Alves e me apaixonei de vez pelo velho Bukowski. Decidi não trocar de carro tão cedo e comprar mais chapéus e camisas de poá. Escolhi continuar amando as reticências e evitando as vírgulas. Na minha caminhada, tive que ressignificar muita coisa para sobreviver. 

É isto: vamos fechar ciclos. Alguns dizem que começamos tudo igual. Que os projetos são os mesmos. Coitados. Estão deixando esta beleza que é a vida passar! Faça um novo projeto! Inicie um novo ciclo! Aprenda uma nova língua. Apaixone-se novamente. Aprenda a cozinhar! Corra! Corra mais cinco quilômetros. Faça Pilates. Mova-se, porque o universo pode conspirar por você a qualquer momento!

Desejo um bom término e um bom começo!


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quem é que vai limpar nossa privada?

Folheando as páginas da internet no dia dois deste mês li uma matéria no jornal Estado de Minas na qual dizia que o Papa e outros líderes religiosos assinaram um acordo pela erradicação da escravidão até 2020. Quando li a manchete confesso que fiquei pensativo. Lembrei-me do processo, gradual, de abolição do trabalho escravo que se iniciou no Brasil em 1850. É, não acabou. Nem aqui nem lá fora. Ainda exploramos o outro. Ainda queremos ganhar dinheiro sobre o trabalho alheio, com o menor esforço possível.

Quando o Brasil regulou a atividade de empregada doméstica, li enxurradas de mensagens, impregnadas pelo senso comum, de que seria impossível manter uma "secretária" (que eufemismo estúpido), pagando salário mínimo e benefícios. Na verdade, elas sempre deveriam ter sido tratadas como qualquer trabalhador, mas nós, em nome do papel ao qual chamamos de dinheiro, deliberadamente escolhemos explorá-las. Sim, a escravidão está em nossos quintais, nos nossos sítios, nas nossas lanchonetes, no restaurante onde almoçamos, nos supermercados onde compramos. Basta parar um minuto e perceber ao redor. A todo momento tentamos explorar o outro. A todo momento tentamos lucrar. Ou você acha que trabalhar aos domingos e feriados, de 10 as 22 horas, com folga apenas na segunda-feira, para ganhar oitocentos reais por mês não é trabalho escravo? Não. Não é mentira. Convivo com pessoas que são exploradas assim. E constantemente elas se perguntam se é melhor ganhar isso sendo exploradas aqui (em sua terra natal) ou ganhar um pouco mais em libras e serem exploradas em Londres, trabalhando vinte horas por dia (e por noite).

Francisco está certo. Temos que continuar o processo de abolição do trabalho escravo. Contudo o prazo está apertado - eita Papa apressado. O ano praticamente acabou e, pelas contas dele, temos cinco anos de luta pela frente. Admiro o otimismo de Bergoglio. Mas talvez nunca erradiquemos o trabalho forçado e o tráfico de pessoas para tal. A nossa lógica é outra! Afinal, quem é que vai limpar nossa privada?


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Hoje eu decidi molhar os pés



Hoje é uma sexta de noite chuvosa em Belo Horizonte, final de novembro, dia vinte e oito, e a chuva parece enfim querer chegar. Para mim, ela anuncia possibilidade de renovação, possibilidade de que não aconteça racionamento de água. Mas anuncia também a pressa da memória das pessoas, a pressa da existência consumida.

Quando saí do trabalho saquei meu pequeno guarda-chuva da mochila, ciente de que iria me molhar. Vi tanta gente correndo pela rua! Claro, é um desejo legítimo: não se molhar. Então me lembrei de uma conversa que tive há dias com um amigo sobre como seria bom tomar um banho de chuva nesses tempos de seca. Lembrei-me das pessoas reclamando do calor e do preço do limão (a caixa subiu 43%). Continuei meus passos lentos em direção ao metrô. Eu era empurrado e olhado com estranheza por causa da minha lentidão. Os pés já estavam molhados, então não pulei a poça de água. Já no vagão consegui um lugar para sentar e, quando tirei meu Júlio Verne para continuar a leitura, percebi que não podia ler, porque tinha uma goteira bem em cima de mim, fechei-o e esperei por meu destino. Desembarquei entre mais correria, com água molhando meus pés.


Compreendo que molhar as meias é horrível. Todavia, às vezes, pode ser um evento profético. Pode significar que teremos terra boa e fartura, mas hoje, não sei o porquê, ninguém se lembrou do calor e da escassez. Como nossa memória tem pressa, muitos de nós se esqueceram do problema anterior, e a chuva se tornou o maior problema do dia. Hoje eu decidi continuar andando devagar e molhar os pés. Desejo um bom Black Friday para os que se esqueceram do calor e do preço do limão. 

P.s.: e a principal nascente do rio São Francisco voltou a jorrar.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Deixem-nos morrer!!

*Imagem da morte jogando xadrez com o cavaleiro, do filme 'O Sétimo Selo'.


A morte de Brittany Maynard foi linda como sua vida. Em sua cama, rodeada por aqueles que ela amava e com a música que ela escolheu. Antes que o câncer cerebral atingisse um estágio no qual a paciente não teria mais autonomia e sua sobrevida fosse garantida pelos médicos e parentes, a moça realizou um suicídio assistido.

Escrevi outro dia sobre o direito ao parto (normal ou cesariana), e a atitude dessa jovem me fez pensar sobre o nosso direito a uma morte digna. Temos dificuldade para falar sobre isso por causa da nossa raiz judaico-cristã. Mas além da mitologia da religião, que tenta eternizar nossa existência, a medicina e sua ética, afetada pela mesma matriz, tentam prolongar a todo custo a vida dos doentes terminais. Recentemente vi um garoto de pouco mais de vinte anos, que lutava contra um câncer, ficar em carne viva em cima de uma cama, recebendo cuidados paliativos, porque não nos permitimos discutir tais questões. Ele estava entubado, inconsciente e sequer podia receber os carinhos da mãe, porque ao menor toque, a pele se desmanchava. Não estamos falando aqui de pessoas que têm possibilidades de terapia. Estamos falando do fim das possibilidades e, nessa perspectiva, existe um pudor funcional em todos nós: temos dificuldade em falar da finitude.

O Conselho Federal de Medicina, em 2012, publicou uma resolução chamada de Diretiva Antecipada de Vontade. O objetivo é de que o paciente registre seus valores e princípios e, de maneira clara, especifique os procedimentos aos quais aceita ser submetido. O documento precisa ser registrado em cartório, e seu declarante tem que ter um procurador. Contudo ainda existe um longo caminho a ser trilhado em todo o mundo acerca do assunto. A própria Brittany teve que se mudar da Califórnia para o Estado de Oregon para se beneficiar da lei do suicídio assistido. Ela, que antes de morrer,  esteve no Vietnã, em Camboja, em Laos, na Cingapura e na Tailândia. Que trabalhou um verão na Costa Rica e que viajou para a Tanzânia, para escalar o Kilimanjaro. Ela que fez aulas de escalada no Equador e mergulhou em Galápagos, em Zanzibar, nas Ilhas Cayman e basicamente em toda ilha que visitou, não pode morrer na terra onde nasceu, porque não nos permitimos falar sobre a eutanásia.

Quando as pessoas quiserem falar sobre o assunto, farei coro com aqueles que pedirão: deixem-nos morrer!