sexta-feira, 9 de maio de 2014

Justiça! (in)Justiça?

      Fabiane Maria de Jesus foi a última vítima/acusada/condenada da justiça que explode nas ruas. Existe uma sensação de que a justiça enquanto sistema de fatos típicos e suas penas esteja frágil, incapaz de cumprir seu papel no contrato social. Concomitantemente a isso existe uma forte vontade popular de liberdade, de poder ir, vir, voltar e fazer o que der na telha. Parece que o velho contrato hobbesiano está ruindo.
     Estamos no olho do furação. Todos querem mais segurança. Todos querem mais liberdade. Mais segurança mesmo que seja uma segurança privada e sem pactos. Mais liberdade mesmo que seja uma liberdade disparatada e sem empatia.
     Segurança se faz com pactos, com metas, com direitos e deveres. Segurança se faz através do Estado. Liberdade se cria em ambientes saudáveis onde a empatia e o bom senso (lado positivo do senso comum) sejam estimulados.
     No contrato social mais segurança produz menos liberdade e mais liberdade redunda em menos segurança. Talvez devêssemos rever nossos conceitos sociológicos e políticos. Talvez sejamos capazes de criar um novo modelo, já que este está falido. Sim, está falido. A falência se mostra em um Estado policialesco que se posta como inimigo da sociedade civil e em uma mobilização popular que não legitima o Estado de Direito na qual se insere. Nessa perspectiva penso que ambos erramos. O Estado deveria ser a extensão de seu povo. A sociedade civil deveria se sentir Estado. O que impossibilita isso? Tanta coisa. Poderia elencar várias: história golpista do país, sistema eleitoral (voto obrigatório), uma reforma política que nunca se faz, tráfico de influências nas casas legislativas, polícias militarizadas, códigos legais ultrapassados, uma política assistencialista que só conseguiu gerar renda e ainda não gerou competências em mais de doze anos de gestão... Enfim temos que repensar, sobretudo após os episódios de linchamento que o país viu nas telas dos veículos de comunicação. Temos que repensar acima de tudo nossos conceitos de segurança, liberdade e justiça.
     Que tipo de justiça se faz com as próprias mãos? Que tipo de justiça se faz pelo Estado? A ausência de segurança me dá licença para praticar a minha justiça? A liberdade me permite qualquer manuseio da (in)justiça?
     Em 1920 Ruy Barbosa, paraninfo da turma dos formandos da turma da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, falou algo que retumba em mim quase sempre: "Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desiguadade flagrante, e não igualdade real." Nessa bagunça que se faz segurança e liberdade no Brasil, não sei que modelo de (in)justiça desejamos, mas o princípio descrito na Oração aos Moços pode nos dar um norte e evitar que Dirceus tenham regalias na Papuda e Fabianes sejam condenadas sem o devido processo legal.  RJ          

quinta-feira, 27 de março de 2014

A certeza faz as pessoas marcharem e me dá medo

     Não quero julgar ninguém. Julgar é uma tarefa difícil e não quero fazê-la. Mas três pessoas me fizeram pensar muito essa semana: Paulo, ex-assassino de cristãos. Hitler, assassino de judeus, homossexuais, negros... E Paulo Malhães, coronel reformado do Exército Brasileiro e assassino de subversivos. Eles me fizeram perder o sono, algo que já é de praxe e só precisa de um ponta pé, pensando no benefício da dúvida.
     Não gosto das cartas de Paulo às primeiras comunidade cristãs. Elas me parecem distintas da liberdade espiritual que as biografias de Jesus narram. Então prefiro as quatro biografias do Messias cristão às epístolas paulinas. Todavia parece-me que dos três personagens citados acima apenas Paulo se permitiu o benefício da dúvida, parando de matar cristãos e agregrando-se à eles. Hitler, não assimilando que poderia estar errado em suas convicções tirou a própria vida, segundo consta nos livros de História e Paulo Malhães ainda hoje não se permite tal epifania e afirma que matar e torturar pessoas de "alta periculosidade" pode ser uma política de Estado.
     Tenho medo de encontrar pessoas como o Paulo, o coronel, neste século. Existindo pessoas como ele não temos grandes perspectivas sustentáveis. Não pretendo que todos pensem como eu. Mas gostaria muito que todos se permitissem o benefício da dúvida. A dúvida me dá a firme e contundente visão de que a minha certeza é apenas uma dentre tantas outras, e que ela é só minha. A dúvida de que poderiam existir religiões e deuses além dos de Israel, teriam evitado a morte de milhares de cristãos. A dúvida de que ciganos, negros, gays, judeus... não eram inferiores aos alemães, teria evitado a morte de aproximadamente 11 milhões de pessoas pertencentes a essas minorias, sem contar o número de mortos nos campos de batalhas da Segunda Guerra. 
     A dúvida poderia evitar que um homem de alta patente das Forças Armadas desse país continuasse pensando que torturar e matar pessoas que pensam diferente seja algo corriqueiro. Tempos difíceis! Tempos nos quais ainda marcham enquanto família, com deus e pela liberdade. Então me pergunto: que tipo de família? Que deus? Que espécie de liberdade?
     Olha, já fui católico, protestante, maçom, petista... Já estive em muitos lugares. Quando me permiti duvidar fui ficando vazio de muitos daqueles lugares. Percebi que quando minhas certezas se tornaram a certeza, eu acabei sendo menos gente. Menos humano. Passei a ter coragem de duvidar. Sim, para duvidar temos que ter coragem, afinal a certeza é um lugar quente e confortável. 
     Pergunto-me: e se eles tivessem se permitido o benefício da dúvida? E se a coragem não tivesse sido tardia em Paulo de Tarso? E se Hitler tivesse se sentado à mesa com um judeu para jantar e bater papo? E se Malhães se desse à dignidade do sentimentalismo e tivesse em algum momento daquela ditadura duvidado do que estava fazendo? Talvez três agonias tivessem sido evitadas. Talvez várias verdades se abraçassem. 
     Tenho medo de pessoas que não duvidam. Tenho medo de certezas absolutas, elas costumam acender fogueiras.


http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/videos/t/edicoes/v/coronel-reformado-confessa-ter-torturado-e-assassinado-presos-politicos-durante-a-ditadura/3239079/
                                                                                                RJ

segunda-feira, 17 de março de 2014

As pessoas continuam jogando papel no chão

     Sim, faz tempo que não escrevo neste pedaço de tela. Pelo menos aqui no blog. Tenho me dedicado aos contos e ao romance que talvez nunca saiam. Mas hoje decidi escrever aqui. Decidi escrever sobre meu cansaço. Fiquem tranquilos. Não é um desabafo. É apenas a ludicidade teimando mais uma vez em mim.
     O Brasil foi tomado por um turbilhão de acontecimentos, é verdade, todavia existe uma desinformação precedida de # (que só há alguns dias descobri o que significa graças a um amigo) me cansando. 
     Respeito a todos e às suas opiniões, mas me cansa a Raquel Sherazade com sua contundência de senso comum. Sim, o senso comum dela é um entojo. Cansa-me o joguinho tosco entre tucanos e lulistas. Sabem, estou cansado de manifestações, que em junho de 2013 me deixaram esperançoso. Um clássico entre Cruzeiro e Atlético reúne gente da mesma maneira. 
     Estou cansado do Beijinho no Ombro e do Lepo Lepo, não enquanto manifestação cultural de umas gentes, mas como um hino matutino. Já estou até cansado desse ano eleitoral. Acreditam que, como fui ativista político, já estão chegando emails e telefonemas de candidatos que nem conhecem as cartilhas de seus partidos? Cansa-me demais ver o Estado policialesco e a Sociedade Civil se degladeando. E essa nossa mídia? Maniqueísta e bipolar. Nossa! Como ela me cansa. 
     E assim vamos nós, alguns entram em um jogo qualquer dessa desinteligência toda. Outros nem sabem o que acontece. E ainda há os que se cansam. Culpados? Inocentes? Nada! O ser humano no máximo pode ser incoerente. Somos múltiplos, não é? Quero esse adjetivo para me justificar: sou múltiplo. 
     Desejo apenas que no meio de nossas incoerências nos encontremos e façamos algo pelo nosso canto de universo. Que apoiemos a contundência de Sherazade, ou não. Que saibamos votar em tucanos ou lulistas, ou mesmo que participemos de uma passeata qualquer cônscios daquilo que queremos, mesmo que seja a vitória de um time de futebol. Desejo que o Lepo Lepo não seja a música que me desperte para trabalhar e que os políticos parem de me ligar. Desejo que o Estado e a Sociedade Civil se sentem à mesma mesa e que a mídia não tente manipular, pelo menos a mim. Isso me irrita!  Desejo que todos se encontrem, dentro ou fora do jogo. Talvez até em um blog, apenas observando, de cansados que estão.
     Percebem como ainda, apesar de cansado, resta uma frágil esperança neste que aqui escreve? Frágil mesmo, porque com esse caldo engrossando de (des)informação e com toda a nossa incoerência humana para assimilar tudo isso as pessoas ainda jogam papel no chão. Ver as pessoas jogando lixo no chão: isso me cansa.

                                                                                                             RJ

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O tempo cumpre seu papel com todos os homens, por Raphael Juliano.


         Um ano: um frasco de tempo.
       Precisamos disso, todavia não haverá frascos na eternidade (creio), apenas o deleite dos afetos construídos neste tempo. Para os homens de boa vontade desejo continuidades em 2014. Para os de má vontade desejo términos.
     Desejo que os homens de boa vontade continuem nutrindo esperança em dias melhores, que eles possam crer que um gesto simples muda o mundo. Desejo que os estes guardiões do bem possam curtir preguiça antes de se levantarem para mudar o mundo, que eles não planejem muito, mas se surpreendam ao longo do caminho. À estes guerreiros da luz desejo a presença da família como escolha, o afeto de amigos leais e corajosos. Desejo que vocês, companheiros do bem, não estejam além nem aquém, mas no meio onde não há sofrimento. Desejo que o dinheiro seja útil e que vocês o usem. Não deixem o dinheiro usa-los. Desejo que trabalhem o suficiente e que o trabalho não vos escravize nem aliene. Que vocês tenham cama cheia, mesa farta, casa que acolha e companhias como às vossas. Desejo que vocês caminhem devagar em direção ao ponto de ônibus, que visitem menos os shoppings e mais os parques, desejo que bebam vinho. Que vocês possam ler sem compromisso na poltrona até o livro adormecer no colo. Desejo que vocês viajem para o interior de Minas ou para a Europa, mas que viagem!
        Desejo dias leves, sempre leves... e que possamos nos encontrar pela vida.
     Desejo que que os homens de má vontade repensem suas ações, e não voltando atrás, que sejam interrompidos pelas reações delas. Tudo no universo flui, inclusive a maldade. É apenas isso que desejo à eles.

     Abrindo meu novo frasco de tempo não quero ter pressa. O tempo cumpre seu papel com todos os homens... quero apenas equilibrar-me em mim.
     Que o Eterno continue nos guardando!

                                                                                   RJ

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Minas, o futebol tupiniquim e as boas-vindas à FIFA , por Raphael Juliano.



            No último domingo eu não esperava nada diferente. A decisão do campeonato brasileiro em Minas trouxe à tona a minha tristeza e  desesperança. Isso porque lembrei-me de junho, um mês que como já escrevi antes, ficará na memória deste país ou porque resultará em prática política de qualidade ou porque caiu no esquecimento. Sim, é contraditório: ficar na memória por cair no esquecimento - coisa do Brasil - mas o assunto agora é outro.
            Em junho, quase que como um reflexo dos eventos ocorridos em São Paulo, Minas Gerais teve sua dose de movimentos sociais. Inicialmente pacíficos, contudo tomando o mesmo rumo do restante do país: confrontos entre manifestantes e policiais, depredações e uma série de extravazamentos emocionais dos menos cautos. Lembro-me de pessoas pedindo que ao invés de tantos investimentos feitos no Mineirão e em suas imediações que se investissem na saúde pública. Lembro-me das pessoas quebrando a obra do BRT (Bus Rapid Transit) na Avenida Antônio Carlos (arredores do estádio Governador Magalhães Pinto) e bradando que queriam mais quilômetros de  metrô, e mais vagões é claro! Vi naquele junho gente querendo invadir o perímetro FIFA! Santo Deus, que caos foi aquilo, mas eu vibrei. Confesso que não vibro novamente. Depois de ontem, não.
            Não torço para nenhum time. Não tenho paciência para futebol. São noventa minutos! Então não me venha com aquela "ah ele é atleticano". Ontem os mineiros pararam a cidade e se submeteram ao outrora odiado padrão FIFA. Utilizaram as dependências do Mineirão da mesma maneira como estavam dispostas para a Copa das Confederações: tiveram que parar seus carros longe demais do estádio, pagaram valores exorbitantes para assistirem o tal clássico do Cruzeiro contra o Grêmio, usaram os ônibus e os poucos vagões de metrô sem reclamarem e comeram o tradicional feijão tropeiro do Mineirão. Dessa vez foi só isso. Ninguém lemboru do SUS. Apenas fizeram festa fechando o trânsito, tumultuando a praça da Estação e a praça Sete (antigo ponto de encontro para as manifestações de junho) com muita cerveja. Nada diferente do que ocorre em todos os outros estados da nação. Apesar de alguns críticos esportivos torcerem o nariz Minas é filha do futebol brasileiro, ora bolas!
            Costumo dizer que as pessoas esquecidas são pessoas bem resolvidas. Mas não se confundam, meus caros. Essa minha frase se aplica apenas às questões existenciais. Na política isso não se aplica! Eu tenho absoluta certeza de que no ano que vem haverá novos protestos por ocasião da Copa do Mundo. E haverá novos confrontos com as polícias, e haverá novos programas emergenciais tipo "mais alguma coisa". E haverá paz em outubro. Porque em outubro não nos lembraremos mais da Copa e a governabilidade se manterá. É assim que se constrói um país: com esquecimento. Esse é nosso futebol!
            E é por isso que eu digo: seja bem-vinda senhora FIFA, nos esquecemos de você uma vez, podemos esquecer de novo.
                                                                                                                                    RJ

sábado, 5 de outubro de 2013

O tempo, as palavras e o mundo, por Raphael Juliano.




    Depois de ter recebido um telefonema de minha irmã dizendo que meu sobrinho de um ano e dez meses me confundiu com o apresentador de TV Brito Júnior em uma sexta-feira quente de Montes Claros algumas coisas me vieram à mente.
   As palavras teriam o poder de invocar o tempo? Ou seria este último que se auto-outorgaria o direito de nos ofertar o palavrear através do passar dos anos? 
    O pequeno Enzo ainda não fala todas as palavras do vasto mundo adulto, mas ele se comunica melhor que a maioria dos adultos que conheço. As poucas palavras que fala, em metades abreviadas, identificam bem seus afetos e vontades. Sei disso porque ele tem dois tios: eu e meu irmão Sammuel. A mim ele chama de "Tí Rapha" e quando quer se referir ao meu irmão ele diz "Titio". O tempo fez com que o pequeno menino criasse seu modo de sair de si. Crescendo, Enzo percebeu que era preciso externar suas vontades, era preciso dizer o que queria e o que não queria. Coisa de gente! Assim, com seu dialeto próprio, percebo que ele cresce significando-se no tempo-espaço onde vive. E seu mundo vai se formando através das sensações que as palavras o oferecem. Talvez a nossa consciência seja apenas um mecanismos evolutivo e, se assim for, as palavras são a melhor expressão dessa evolução, dessa necessidade de se postar no mundo e adaptar-se a ele.
     As palavras invocam, sim, o tempo. Tempo de brincar, tempo de abrir mão de certezas e até de concordar com o que não se concorda apenas para ver um imbecil qualquer se calar e parar de encher o saco. As palavras invocam um tempos de saudades em sacramentos e ritos cotidianos. Leonardo Boff guarda a última bituca de cigarro que seu pai fumou antes de morrer: palavra sacramentada, palavra que traz a presença do pai dele. Palavra que traz um tempo que se foi, porque sacramentos são isso, palavras que encarnam o que não é mais em objetos, lembranças e penduricalhos.
    Já o tempo, esse deus impiedoso, utiliza da maior beleza da eternidade para nos dizer: "Tempus Fugit". Lembro-me agora do personagem John Keating, vivido por Robin Williams em "Sociedade dos Poetas Mortos". Ele sussurra para seus alunos... Car...pe...Di...em. "Aproveitem a vida garotos!" "Porque o tempo os sacrificará um dia desses." O tempo não sobreviveria sem as palavras. Ele precisa delas para se empoderar. Apesar de as palavras não viverem fora do tempo, elas são mais belas. Vivem para a eternidade. O tempo e a eternidade não são amigos.
    Quando Enzo me confundiu com um apresentador de TV talvez o que estivesse acontecendo ali fosse uma submissão do tempo às palavras. Em algum lugar eterno e não distante ele sabe que tem um tio e, apesar de o tempo estar passando, ele se colocou no mundo como um pequenino saudoso. Estava com saudades das minhas aporrinhações. (risos)
    O tempo é um altar cruel. As palavras são sacerdotisas! E nós? O que somos nesse mundo, nesse universo místico? Talvez pessoas a serem imoladas à eternidade. RJ

domingo, 14 de julho de 2013

Fomos treinados para isso!, por Raphael Juliano.






            Recentemente assisti ao documentário de Tom Shadyac, “I AM”. Confesso que fazia tempo que não via algo que retratava tanto meu pensamento. Depois de um trauma, o diretor famoso redimensiona sua vida e vai em busca de respostas para duas questões básicas:”O que está errado no mundo?” e “Que podemos fazer sobre isso?”
            Em um mundo que nos estimula a consumir e a sermos carreiristas a obra em comento é uma contestação.  
            Não há tempo para sermos felizes em plenitude. Desde que nascemos somos treinados para sermos os melhores e para consumirmos tudo, inclusive relações humanas. Em todas as instituições percebo as pessoas sendo estimuladas ao carreirismo. Na igreja os seminaristas querem ser bispos, nos quartéis os soldados querem ser coronéis, na iniciativa privada o estoquista quer ser gerente geral e na universidade o graduado quer ser doutor.
            O consumo é tão facilitado que podemos fazer sexo e dividir no cartão de crédito em dez vezes. Somos estimulados a consumir tudo. O advento da internet, e as redes sociais, nos bombardeiam com uma gama tão intensa de informações que se não consumirmos nos sentimos mal. Somos obrigados a consumir inclusive informação. Parece que a vida depende daquilo que compramos. Parece que a vida depende do cargo que galgamos na nossa empresa. Felicidade é isso: consumir e competir.
            Digo para você, meu caro. Discordo. Felicidade é bem mais do que ter uma relação com a propriedade privada. Felicidade é bem mais do que estar no topo. Felicidade é ter um caso de amor com a vida e com as pessoas. Felicidade é integrar o erro ao ser e se redescobrir enquanto ser humano. Claro que essa é uma história individual. Cada um tem que fazer sua estrada. A questão é: e quando completarmos sessenta anos? E setenta? Ainda haverá o sonho do melhor carro e do melhor cargo? Se não redescobrirmos em nós a beleza da vida, da simplicidade de ser, das prosas de varanda, de um livro ou filme, estamos fadados a um fim solitário e triste. Isso porque as coisas e a competição por elas não podem substituir a essência do homem. Essa falsa ideia é perigosa porque não há recursos para comprar tudo. Não espaço no topo para todos. E na medida em que internalizamos a lógica da competição e do consumismo corremos o risco de nos frustrar.
            Tenho redescoberto a beleza do ócio, da rotina, da lentidão. Tenho redescoberto a beleza de um bom café com amigos queridos. Tenho encontrado algumas pessoas com os mesmos propósitos. Poucas pessoas, mas pessoas que quero manter por perto, pois ao chegar aos sessenta ou setenta desejo aproveitar dessas belezas que redescobri.
            Fui treinado para ser carreirista. Fui treinado para comprar. Sou um péssimo aluno. Não aprendi bem, não entendi a lição.

                                                                                                RJ